A complexa e dolorosa história do Holocausto, o genocídio de milhões de judeus e outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial, ainda é pouco compreendida por uma parcela significativa da população brasileira, conforme aponta uma pesquisa recente. O estudo, lançado em São Paulo, revela que, embora muitos brasileiros já tenham ouvido falar do termo, a profundidade do conhecimento sobre os eventos e suas vítimas é alarmantemente superficial. Este cenário ressalta a urgência de fortalecer a educação e a memória para combater a desinformação e os discursos de ódio, especialmente em um período de crescente banalização de tais atrocidades. A história de Hannah Charlier, uma sobrevivente que hoje reside no Brasil, é um testemunho vivo da brutalidade e da resiliência humana diante dessa tragédia sem precedentes.
O legado de Hannah Charlier: uma história de sobrevivência
A trajetória de Hannah Charlier, hoje com 83 anos, é um vívido lembrete da barbárie do Holocausto e da extraordinária capacidade de superação. Nascida em 1944, na Bélgica, em meio à ocupação nazista, Hannah veio ao mundo sob circunstâncias inimagináveis. Sua mãe, grávida e parte da resistência judaica contra o regime alemão, foi capturada e levada a uma prisão, onde Hannah nasceu. A vida da recém-nascida já estava marcada pela tragédia, pois seus pais foram rapidamente condenados ao fuzilamento.
A infância sob a sombra nazista
Momentos antes de ser executada, a mãe de Hannah, em um ato desesperado e sublime de amor, embrulhou a filha em um pequeno pacote e o amarrou às suas costas. Após o fuzilamento, o corpo da mãe caiu sobre Hannah, e sobre elas, outros corpos sem vida se empilharam. No entanto, o destino interveio de forma inesperada. Um oficial alemão presente na cena notou a tentativa da mãe de proteger algo. Curioso com a persistência da mulher em preservar aquele embrulho, ele aguardou a partida de todos, retornou ao local e descobriu a criança viva sob os corpos. O oficial, sem que ninguém percebesse, colocou a bebê em sua mochila e a deixou com um grupo de resistentes judeus.
Resgate e nova vida no Brasil
Os membros da resistência, cientes de que a mãe de Hannah havia sido capturada grávida, reconheceram a criança como sua filha. Hannah foi então entregue a uma mulher dedicada ao Serviço Social da Infância, uma heroína que salvou mais de 5 mil crianças judias durante a guerra. Levada a um orfanato, Hannah foi posteriormente adotada por um casal que imigrou para o Brasil quando ela tinha 9 anos. Desde então, ela vive no país, carregando consigo as cicatrizes e as lições de um passado indizível. Sua história é um poderoso testemunho da perseguição sistemática e do assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão e seus colaboradores, um evento que teve início em janeiro de 1933 com a ascensão de Adolf Hitler e terminou em maio de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial.
A fragilidade do conhecimento brasileiro sobre o Holocausto
O lançamento da pesquisa “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil”, realizada pelo Grupo Ispo a pedido de importantes instituições como a Confederação Israelita do Brasil (Conib), o Memorial do Holocausto de São Paulo, o Museu do Holocausto de Curitiba e a Stand WithUs Brasil, revela um panorama preocupante. A pesquisa, que ouviu 7.762 pessoas em 11 regiões metropolitanas do país entre abril e outubro do ano passado, demonstra que, embora 59,3% dos brasileiros afirmem ter ouvido falar do Holocausto, apenas 53,2% conseguem defini-lo corretamente.
Dados da pesquisa: lacunas e desafios
Os dados apontam para uma fragilidade ainda maior quando se analisam elementos específicos do tema. Apenas 38% dos entrevistados, por exemplo, reconhecem Auschwitz-Birkenau como um campo de concentração e extermínio de judeus. Sergio Napchan, diretor executivo da Conib, destaca a amplitude da tragédia: “O Holocausto em si é um recorte, esses números não são precisos, mas morreram 6 milhões de pessoas. Um terço dos judeus que moravam na Europa foram exterminados por serem judeus”. Ele ressalta que as vítimas não foram exclusivamente judeus, mas também incluíram a população LGBTQIA+, prisioneiros políticos e Testemunhas de Jeová, enfatizando que “essa história não é uma história judaica” em sua exclusividade, mas sim uma tragédia humana de proporções universais. Hana Nusbaum, gerente de Educação da Stand WithUs Brasil, alerta para a seriedade dessas lacunas: “Isso é muito importante nos dias de hoje, porque a gente está vivendo um momento em que o discurso de ódio está circulando muito pelas redes sociais. Os jovens estão consumindo muito conteúdo com apologia ao nazismo e com banalização do Holocausto”.
Fontes de informação e o papel da educação
A pesquisa também investigou as principais fontes de conhecimento sobre o Holocausto no Brasil. A escola surge como a principal fonte, citada por 30,9% dos entrevistados, seguida por filmes e livros (18,6%) e a internet e redes sociais (12,5%). Alarmantemente, museus, memoriais e instituições especializadas foram mencionados por apenas 1,7% das pessoas, indicando um baixo acesso a espaços formais de memória. Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, sublinha a relevância desses dados, reforçando a importância da educação e da cultura para a compreensão desse episódio. Ele defende que “o museu tem um papel fundamental na construção dessa memória”, e que esses espaços devem atuar ativamente contra discursos de ódio, racismo, homofobia e outras formas de violência.
Combate ao ódio e a importância da memória
A compreensão do Holocausto não se restringe a um mero fato histórico; ela é uma ferramenta vital para a formação cidadã e para a prevenção de futuras atrocidades. Hana Nusbaum enfatiza que, ao compreenderem o que foi o Holocausto, os alunos brasileiros fortalecem sua capacidade de discernimento e resistência contra o ódio. Ela recorda as palavras do sobrevivente Gabriel Waldman, que, ao falar sobre o tema em salas de aula, afirma estar lá “para vacinar os alunos contra o ódio”.
Museus e educação como pilares
A baixa visitação a museus e memoriais, evidenciada pela pesquisa, sugere a necessidade de políticas públicas e iniciativas que incentivem o acesso a esses espaços de aprendizado e reflexão. Esses locais não apenas preservam a memória, mas também servem como centros de resistência contra a desinformação e a banalização. Sergio Napchan reforça a convicção de que educar, falar e dar significado ao que representou o Holocausto é o caminho para evitar que algo semelhante aconteça novamente. “A gente não garante nada. O mundo anda confuso. Mas queira Deus que fazendo isso, estaremos fazendo a nossa parte”, pondera. O estudo “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil” será expandido para outras regiões do país, incluindo o Norte, para aprofundar a compreensão sobre o tema.
Mobilização para não esquecer
Em memória às vítimas do Holocausto e para marcar o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, diversos atos estão programados. Em São Paulo, no domingo (25), a Congregação Israelita Paulista sediará um ato às 18h. No dia seguinte, a Casa do Povo receberá a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, para um encontro com instituições da comunidade judaica e do bairro Bom Retiro, com início às 18h20. Essas iniciativas buscam manter viva a memória do passado e inspirar um futuro mais consciente e justo.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que foi o holocausto?
O Holocausto foi a perseguição sistemática e o assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão, seus aliados e colaboradores, entre 1933 e 1945. Além dos judeus, milhões de outras vítimas, incluindo ciganos, pessoas com deficiência, prisioneiros políticos e membros da comunidade LGBTQIA+, também foram perseguidas e mortas.
Por que o conhecimento sobre o holocausto é importante hoje?
O conhecimento sobre o Holocausto é crucial para combater a desinformação, a banalização de crimes contra a humanidade e os crescentes discursos de ódio. Ele serve como um alerta sobre os perigos do extremismo, do preconceito e da intolerância, fortalecendo a formação cidadã e o compromisso com os direitos humanos para que tais atrocidades “nunca mais” aconteçam.
Como posso aprender mais sobre o holocausto?
Além de pesquisas escolares e livros, é possível aprofundar o conhecimento sobre o Holocausto visitando museus e memoriais dedicados ao tema, como o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto de São Paulo e o Museu do Holocausto de Curitiba. Documentários, filmes e testemunhos de sobreviventes também são fontes valiosas de aprendizado.
Aprofunde seu entendimento sobre o Holocausto e contribua para a construção de uma sociedade mais consciente e tolerante. Visite museus, participe de eventos comemorativos e apoie iniciativas educacionais que buscam preservar a memória e combater o ódio.
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