© Fernando Frazão/Agência Brasil

Bloco no Rio busca integrar trabalhadoras do sexo e romper estigmas

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O vibrante carnaval do Rio de Janeiro é palco de diversas manifestações culturais, e uma delas se destaca pela sua missão social. O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa desfilou na Praça da Bandeira com o propósito de celebrar a potência cultural da região e, crucialmente, promover a integração das trabalhadoras do sexo, buscando romper com estigmas sociais. Embora o carro de som clamasse por aplausos e reconhecimento à “vida difícil” dessas mulheres, a realidade na rua revelou uma complexidade na adesão. Muitas preferem a discrição das calçadas e bares, observando a festa de longe, um desafio que sublinha a persistência do preconceito e a necessidade de apoio contínuo para alcançar a plena valorização e participação dessas profissionais na folia.

Desafios na busca por integração e respeito

Entre o apoio do palco e a distância da calçada
Apesar da homenagem explícita durante o desfile do Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa, a presença das trabalhadoras do sexo na linha de frente da folia ainda é um desafio. Na noite chuvosa da última sexta-feira, o locutor no carro de som pedia aplausos e versos dedicados às mulheres da Vila Mimosa ressoavam, mas a maioria preferia observar a festa de uma perspectiva mais reservada. Estrela, uma trabalhadora de 58 anos, exemplifica essa postura. “Eu vou dançar aqui de longe, porque não quero chamar muito a atenção”, explica, acrescentando: “Na boate, não estou nem aí, mas tenho medo que o bloco ache ruim eu dançar com ele, então fico dançando aqui, porque eu respeito”. Essa distância reflete o receio da exposição pública e o estigma ainda associado à sua profissão, mesmo em um evento que se propõe inclusivo.

Barreiras socioeconômicas e o receio da exposição
A integração plena das trabalhadoras do sexo no bloco carnavalesco é um objetivo ambicioso, mas que esbarra em diversas barreiras. Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social, detalha a dificuldade. “Algumas trabalhadoras fogem, porque ficam com medo de serem filmadas e aparecer na mídia”, relata. Outras, segundo ela, até se juntam ao desfile, mas a conexão mais profunda e a participação efetiva só são possíveis com “apoio financeiro e projetos sociais acontecendo”, elementos que, lamenta Cleide, têm faltado. Felipe Vasconcellos, um dos líderes da banda “Enxota que eu vou”, que anima o bloco há três anos, corrobora a complexidade. Ele aponta para questões socioeconômicas como impeditivos significativos. “Elas trabalham até tarde, têm filhos, moram aqui. Vão dormir tarde, têm que cuidar da família”, descreve Felipe, sugerindo que, em meio a essa rotina exaustiva, “talvez não surja interesse mesmo para fazer um curso de percussão ou outra atividade” que promoveria maior engajamento.

A voz das trabalhadoras e a luta por dignidade

Perspectivas sobre o bloco e o valor do trabalho
Mesmo com as dificuldades de integração direta, o Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa é visto com bons olhos por quem vive e trabalha na região. Laísa, uma jovem de 21 anos com cinco anos de experiência na Vila Mimosa, reconhece o valor do evento. “Aqui é um local de trabalho bom e o bloco é uma alegria”, afirma. Ela ressalta que, embora muitas precisem trabalhar durante o desfile, a iniciativa ajuda a “valorizar a região e a gente”. Em um contexto de “muito preconceito”, o bloco serve como um importante “alerta sobre isso”. Laísa também sublinha a essencialidade da Vila Mimosa para sua subsistência e a de muitas outras: “Chego aqui na sexta-feira e vou embora para casa na segunda. É a única forma de fazer um dinheiro para pagar aluguel, pagar as coisas em casa direitinho. Peço que aqui nunca feche, porque a gente está trabalhando”. Essa fala ilustra a importância econômica e social do local para essas mulheres.

Quebrando tabus: histórias de vida na Vila Mimosa
A presidente do bloco, Cleide Almeida, enfatiza que a essência do desfile é desconstruir a visão negativa e preconceituosa sobre a Vila Mimosa e suas trabalhadoras. “Todo mundo que mora no Rio deveria vir aqui e conhecer melhor a vida da trabalhadora sexual”, defende. Ela argumenta que essas mulheres são “mães, irmãs, filhas e avós” – pessoas complexas e multifacetadas, cujas histórias precisam ser conhecidas e respeitadas, e não julgadas. “O bloco traz isso. É um bloco para derrubar tabus”, completa. A própria Estrela, que dança de longe, é um exemplo potente dessa desmistificação. Revelando uma trajetória surpreendente, ela conta: “Eu sou técnica de enfermagem e venho em busca de um extra. Comecei aqui por causa de dívida alta. Caí em um golpe e perdi mais de R$ 100 mil. Consegui pagar tudo, mas continuei porque ganho muito dinheiro aqui”. Estrela desafia os estereótipos, afirmando: “Não devo nada para a sociedade, tenho dois filhos criados. Estou aqui para manter o que tenho e adquirir mais”. Essa perspectiva é corroborada por visitantes como a administradora Daniela Tarta, que veio pela primeira vez ao bloco justamente para quebrar preconceitos. “É o momento de vir aqui, de tentar me aproximar dessa população que é tão menosprezada, tão desqualificada”, diz Daniela, defendendo que “aqui tem pessoas como qualquer outro lugar. É um espaço aberto, completamente democrático”.

Legado histórico e a demanda por reconhecimento

Da Zona do Mangue à Vila Mimosa: uma trajetória de reordenamento urbano
A Vila Mimosa não é um fenômeno isolado, mas herdeira de uma longa história de trabalho sexual no Rio de Janeiro. Suas raízes remontam à antiga Zona do Mangue, que floresceu entre o fim do século XIX e o início do século XX, consolidando-se como o principal polo de prostituição da cidade. Localizada no entorno do Canal do Mangue e da atual Avenida Presidente Vargas, essa área central passou por intensas intervenções urbanas e políticas de “ordenamento” ao longo do século XX. Tais transformações empurraram bares e casas noturnas, e consequentemente as trabalhadoras, para outras regiões. Foi assim que a Praça da Bandeira, com seus galpões e terrenos industriais, começou a se configurar como um novo ponto de encontro para essas profissionais. A consolidação definitiva da Vila Mimosa como o principal local de trabalho sexual da cidade ocorreu em meados da década de 1990, estabelecendo o complexo que conhecemos hoje.

Apelo por atenção pública e direitos
Atualmente, a luta em torno da Vila Mimosa transcende o carnaval e os esforços de integração do bloco. Movimentos sociais, associações de moradores e as próprias trabalhadoras do sexo se articulam para que a região, carinhosamente chamada de VM, receba uma atenção mais efetiva do poder público. A demanda é por mais serviços essenciais, a garantia de direitos trabalhistas e sociais, e melhorias significativas na estrutura urbana do local. A visão é de que essas ações devem ir além de intervenções superficiais, abordando a complexidade social e histórica que define a região. O reconhecimento e a valorização da Vila Mimosa como um espaço de trabalho e de vidas, com suas especificidades e necessidades, são passos fundamentais para assegurar dignidade e condições adequadas para suas moradoras e trabalhadoras.

Conclusão
O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa personifica a complexa intersecção entre festa, memória e luta social no Rio de Janeiro. Ao desfilar com o objetivo de valorizar a potência cultural da região e, sobretudo, integrar as trabalhadoras do sexo, ele lança luz sobre os estigmas ainda presentes na sociedade. As dificuldades em alcançar a plena participação dessas mulheres, muitas vezes movidas pelo receio da exposição pública ou por barreiras socioeconômicas, evidenciam que a celebração é apenas uma das frentes de uma batalha maior. Histórias como a de Estrela e Laísa revelam a diversidade e a resiliência de quem encontra na Vila Mimosa um meio de sustento, desafiando preconceitos e buscando dignidade. A Vila, com sua rica e por vezes dolorosa trajetória desde a Zona do Mangue, clama hoje por reconhecimento oficial e atenção do poder público, demandando serviços, direitos e infraestrutura adequados. O bloco, portanto, não é apenas um evento carnavalesco; é um símbolo de resistência, um catalisador para o diálogo e um convite à sociedade para enxergar além dos rótulos, promovendo o respeito e a inclusão que essas trabalhadoras, e o legado da Vila Mimosa, tanto merecem.

Perguntas frequentes

O que é o Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa?
É um bloco de carnaval do Rio de Janeiro criado em 2018 com o objetivo de celebrar a cultura da região da Praça da Bandeira, que historicamente abriga pontos de prostituição, e de promover a integração e o respeito às trabalhadoras do sexo da Vila Mimosa.

Quais são os principais desafios enfrentados pelo bloco na integração das trabalhadoras do sexo?
Os desafios incluem o receio das trabalhadoras de serem filmadas e expostas na mídia, barreiras socioeconômicas como longas jornadas de trabalho e responsabilidades familiares, e a falta de apoio financeiro e projetos sociais para promover maior engajamento.

Qual a origem histórica da Vila Mimosa como centro de trabalho sexual?
A Vila Mimosa é herdeira da antiga Zona do Mangue, principal polo de prostituição do Rio entre o fim do século XIX e início do XX. Intervenções urbanas no centro da cidade forçaram a migração desses estabelecimentos para a Praça da Bandeira, consolidando a Vila Mimosa como o novo centro a partir da década de 1990.

Como o bloco contribui para a quebra de estigmas?
O bloco busca humanizar a imagem das trabalhadoras do sexo, destacando que são mulheres com histórias de vida diversas, incluindo mães, irmãs e avós, e que o local é vital para seu sustento. Ele convida a sociedade a conhecer e respeitar essas mulheres, desafiando preconceitos.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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