Em um movimento decisivo para a estabilidade do sistema financeiro nacional, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento. A medida, anunciada nesta quarta-feira, ocorre após a constatação de comprometimento da situação econômico-financeira da instituição e sua subsequente insolvência. Controlada pelo Banco Master, que já operava sob um Regime Especial de Administração Temporária (RAET) desde novembro de 2025, a Will Financeira teve seus problemas agravados. O desdobramento sublinha a vigilância regulatória e busca proteger a integridade do mercado, impondo, entre outras ações, a indisponibilidade de bens dos antigos gestores e controladores, evidenciando a seriedade do caso e seu impacto no setor.
A liquidação da Will Financeira e seus desdobramentos
A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento representa o capítulo final de um processo que vinha sendo monitorado de perto pela autoridade monetária. A instituição, que fazia parte do conglomerado Master, teve seu destino selado após a inviabilidade de uma solução que pudesse preservar suas operações, mesmo sob o regime de administração temporária já imposto ao Banco Master.
Os motivos do Banco Central
Inicialmente, quando a liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada em novembro de 2025, o Banco Central entendeu que impor um Regime Especial de Administração Temporária (RAET) ao Master Múltiplo S/A seria uma abordagem adequada e de interesse público. A expectativa era encontrar uma solução que pudesse preservar o funcionamento da sua controlada, a Will Financeira. No entanto, essa expectativa não se concretizou.
Conforme apurou o Banco Central, a solução não se mostrou viável. Em 19 de janeiro, foi constatado o descumprimento, por parte da Will Financeira, da grade de pagamentos com o arranjo de pagamentos Mastercard Brasil Soluções de Pagamentos. Esse descumprimento resultou no bloqueio de sua participação nesse arranjo, comprometendo gravemente sua capacidade operacional. Diante dessa situação crítica, a autoridade monetária considerou inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira. A decisão foi fundamentada no comprometimento irrecuperável de sua situação econômico-financeira, na sua condição de insolvência e no vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master sobre a financeira.
Medidas adicionais e contexto do conglomerado
A decretação da liquidação extrajudicial da Will Financeira não se limita apenas ao encerramento de suas atividades. Entre as medidas previstas pelo Banco Central, está a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição. Essa ação visa garantir a apuração de responsabilidades e, eventualmente, o ressarcimento de perdas, caso sejam comprovadas irregularidades na gestão.
O conglomerado Master, do qual a Will Financeira era parte, detinha uma participação relativamente modesta no Sistema Financeiro Nacional (SFN), representando 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais. Apesar de sua parcela de mercado não ser das maiores, a complexidade e a natureza das irregularidades investigadas no Banco Master, e agora na Will Financeira, evidenciam a importância da intervenção regulatória para proteger a integridade e a credibilidade do setor financeiro brasileiro.
Entenda o caso Banco Master e seu impacto
A liquidação da Will Financeira está intrinsecamente ligada à crise que levou à liquidação do Banco Master, instituição controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. A história do Banco Master é marcada por um crescimento acelerado e um modelo de negócios que, segundo as investigações, se tornou insustentável e fraudulento.
A ascensão e queda do Master
O Banco Master chamou a atenção do mercado ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidade significativamente acima da média. Essa estratégia atraiu muitos investidores em busca de retornos elevados. Para sustentar esse modelo agressivo, o banco passou a assumir riscos excessivos e a estruturar operações financeiras complexas que, na prática, inflavam artificialmente seu balanço. Enquanto os números no papel pareciam robustos, a liquidez real da instituição – ou seja, o dinheiro imediatamente disponível para honrar os compromissos com os investidores – se deteriorava rapidamente. Esse desequilíbrio entre passivos e ativos líquidos foi um dos principais fatores que levaram ao seu colapso.
Esquema de triangulação e desvio de fundos
As investigações conduzidas pela Polícia Federal e os relatórios detalhados do Banco Central revelaram que o colapso do Banco Master não foi apenas uma questão de má gestão financeira, mas um problema institucional profundo, marcado por suspeitas de fraude e desvio de recursos. Entre 2023 e 2024, estima-se que o Master tenha desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de um sofisticado esquema de triangulação.
O modus operandi envolvia o banco emprestando recursos a empresas supostamente “laranjas” ou de fachada. Essas empresas, por sua vez, aplicavam o dinheiro em fundos geridos pela Reag Investimentos, uma gestora com a qual o Master tinha ligações. Esses fundos, então, eram utilizados para adquirir ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflacionados, gerando lucros fictícios e permitindo o desvio de capital.
Fundos suspeitos da Reag e impacto das investigações
A análise do Banco Central identificou seis fundos da Reag Investimentos como suspeitos, com um patrimônio conjunto que atingia impressionantes R$ 102,4 bilhões. O dinheiro desses fundos circulava em um emaranhado de transações entre entidades ligadas aos mesmos intermediários, até chegar aos beneficiários finais do esquema.
A conexão entre o Banco Master e a gestora Reag Investimentos, as tentativas de venda de ativos, incluindo uma suposta negociação com o Banco de Brasília (BRB), e a pressão sobre órgãos de controle transformaram o caso em um complexo “xadrez”, com graves implicações. O escândalo teve um impacto direto e negativo sobre os investidores que confiaram no banco e abalou a credibilidade de parte das instituições financeiras envolvidas, reforçando a necessidade de uma fiscalização rigorosa e contínua por parte das autoridades monetárias.
Conclusão
A liquidação extrajudicial da Will Financeira pelo Banco Central, sucedendo a do Banco Master, reforça a atuação vigilante das autoridades regulatórias na proteção do sistema financeiro nacional. A série de eventos, que revelou um complexo esquema de desvio de fundos e má gestão, destaca a importância da transparência e da governança corporativa no setor bancário. A imposição de indisponibilidade de bens aos controladores e ex-administradores sublinha o compromisso com a responsabilização, enviando uma mensagem clara ao mercado de que irregularidades serão combatidas com rigor. Para os investidores, o episódio serve como um alerta para a necessidade de diligência e de compreensão dos riscos associados a promessas de retornos muito acima da média.
FAQ
O que significa liquidação extrajudicial?
A liquidação extrajudicial é um processo de intervenção e encerramento das atividades de uma instituição financeira, decretado por um órgão regulador (como o Banco Central), quando esta se encontra em grave situação financeira, insolvência ou com irregularidades que comprometam sua estabilidade e a segurança do sistema. Diferente da liquidação judicial, não passa por um processo na justiça comum.
Os clientes da Will Financeira serão afetados?
Sim, clientes de instituições financeiras em liquidação extrajudicial podem ser afetados. No entanto, depósitos, investimentos e outros produtos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) podem ser ressarcidos até o limite de R$ 250 mil por CPF/CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado financeiro. É importante verificar a cobertura específica para cada tipo de aplicação.
Qual o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em casos de liquidação?
O FGC tem a função de proteger depositantes e investidores de instituições financeiras associadas, garantindo o reembolso de valores até um limite estabelecido (atualmente R$ 250 mil por CPF/CNPJ, por instituição). Em casos de liquidação, o FGC atua para iniciar o pagamento aos credores elegíveis, minimizando o impacto sobre os pequenos e médios investidores.
Qual foi a principal irregularidade no caso do Banco Master?
A principal irregularidade apontada nas investigações do Banco Central e da Polícia Federal sobre o Banco Master foi a estruturação de um esquema de triangulação envolvendo empresas “laranjas” e fundos da gestora Reag Investimentos. Esse esquema teria desviado bilhões de reais por meio da aquisição de ativos sem valor real por preços inflacionados, inflando artificialmente o balanço do banco e mascarando sua real situação financeira.
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