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Alunos são presos por tortura de calouros em Etec de Iguape, SP

A comunidade escolar e as autoridades no litoral de São Paulo foram abaladas pela prisão de três estudantes acusados de torturar calouros em um alojamento da Escola Técnica Estadual (Etec) Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros, localizada em Iguape. As detenções ocorreram após a Justiça expedir mandados de prisão e apreensão contra os envolvidos: um jovem de 18 anos e dois adolescentes, de 15 e 16 anos. O caso, que inicialmente foi registrado como lesão corporal, teve sua gravidade elevada para tortura após o aprofundamento das investigações da Polícia Civil. As acusações incluem atos de violência física e psicológica, constrangimento ilegal e lesão corporal, supostamente perpetrados sob o pretexto de um “juramento de trote” no início do ano letivo. A situação expõe a urgência de medidas preventivas e a rigorosa apuração de condutas inadequadas em ambientes educacionais.

Ação policial e prisões

Detenções e encaminhamentos

A Polícia Militar, por meio de equipes do 14º Batalhão de Polícia Militar do Interior, agiu prontamente após a decisão judicial, cumprindo os mandados no sábado, 14 de outubro. Kaue Vinicius Souza, o estudante de 18 anos, foi detido e encaminhado à prisão, onde permanece à disposição da Justiça. Paralelamente, os dois adolescentes, de 15 e 16 anos, foram apreendidos e levados à Fundação Casa de Peruíbe, instituição responsável pela internação de menores em conflito com a lei, onde aguardam os desdobramentos de seus processos judiciais. A celeridade na ação policial reflete a gravidade das denúncias e a necessidade de uma resposta rápida para garantir a segurança dos demais estudantes e a responsabilização dos acusados. A comunidade local acompanha de perto o desenrolar do caso, chocada com a natureza dos crimes imputados aos jovens.

O início das investigações

O caso veio à tona na quarta-feira, 11 de outubro, quando as primeiras denúncias foram registradas. Inicialmente, as autoridades trataram o incidente como lesão corporal e vias de fato, termos que descrevem agressões físicas mais leves. No entanto, com o avanço das apurações e o recolhimento de mais evidências e depoimentos, a Polícia Civil de Iguape reavaliou a tipificação dos crimes. Percebendo a existência de elementos que configuravam uma conduta mais grave e sistemática, a delegacia instaurou um inquérito para investigar os fatos como tortura, constrangimento ilegal e lesão corporal. Essa mudança na categorização dos crimes sublinha a complexidade e a brutalidade dos atos praticados, que transcendem simples agressões e indicam a imposição deliberada de sofrimento físico e mental às vítimas.

Detalhes das acusações de tortura

O “juramento de trote” e as agressões

Familiares das vítimas relataram que as agressões faziam parte de um suposto “juramento de trote”, um ritual informal e coercitivo firmado entre veteranos e calouros no início do ano letivo, em fevereiro. Sob a premissa de uma falsa tradição ou rito de passagem, os estudantes novatos eram submetidos a uma série de atos de violência. As agressões incluíam golpes com alicates, cintos e pedaços de cano, além de tapas e diversas formas de humilhação. Os relatos indicam que os veteranos instruíam os calouros a não denunciar os abusos, e algumas dessas agressões eram inclusive gravadas em vídeo pelos próprios agressores, demonstrando um total descaso com a integridade física e psicológica das vítimas. Os investigados, que cursavam o segundo e o terceiro anos do ensino médio, exerciam uma posição de poder e intimidação sobre os mais novos.

Como o caso veio à tona

A descoberta dos abusos ocorreu após a família de uma das vítimas notar um ferimento provocado por alicate no peito do adolescente quando ele retornou para casa, no final de semana. Preocupados e desconfiados, os familiares decidiram buscar esclarecimentos. Uma parente do jovem deslocou-se até o alojamento da Etec, onde, além de confrontar os acusados, fez uma descoberta chocante: pelos pubianos estavam espalhados na cama do calouro como uma forma adicional de punição ou humilhação. Foi nesse momento que a família tomou conhecimento da extensão dos abusos e da existência de outros menores também submetidos a torturas no local. A coragem dessa família em procurar as autoridades foi crucial para desvendar a situação e dar início às investigações formais, protegendo não apenas seu parente, mas também outros estudantes em situação de vulnerabilidade.

O papel da liderança no alojamento

As investigações apontam que o trio de estudantes atuava como uma espécie de liderança informal dentro do alojamento, que tem capacidade para abrigar até 28 alunos. Segundo os relatos, ao menos cinco calouros teriam sido sistematicamente submetidos a essas agressões, recebendo a orientação expressa de não comunicar os fatos aos funcionários da escola. Os abusos ocorriam principalmente à noite, durante a semana, período em que a supervisão era possivelmente mais relaxada e grande parte dos estudantes veteranos permanecia no alojamento. As agressões incluíam não apenas violência física, mas também atos de humilhação, alguns deles perpetrados enquanto as vítimas tentavam descansar. Aos finais de semana, quando parte dos estudantes retornava às suas residências, as agressões eram temporariamente suspensas, mas a expectativa do “Dia da Libertação”, originalmente estabelecido para 18 de março no “juramento”, não se concretizou como um fim das hostilidades, prolongando o sofrimento das vítimas.

A investigação e as evidências

Apreensões e achados

Na quarta-feira, 11 de outubro, a Polícia Militar foi acionada e conduziu os envolvidos à Delegacia de Iguape. No local, além do registro inicial da ocorrência, foram apreendidos os celulares dos três indiciados, que se revelariam peças chave na investigação. Adicionalmente, dois alicates e uma faca foram encontrados e apreendidos, corroborando os relatos das vítimas sobre os instrumentos utilizados nas agressões. A análise dos telefones dos jovens revelou registros em vídeo das torturas, fornecendo provas irrefutáveis dos atos de violência. Em um dos vídeos, um dos menores é visto expressando seu sofrimento, dizendo “já sofri demais hoje” e recusando-se a ir ao local onde as agressões ocorriam, o que demonstra o terror imposto às vítimas.

Denúncias não investigadas

Durante o processo, os responsáveis pelos alunos também denunciaram a existência de drogas escondidas no alojamento. Contudo, segundo seus relatos, a polícia não teria realizado a devida averiguação ou busca por esses itens no local. Embora a investigação principal tenha se concentrado nos crimes de tortura e agressão, essa denúncia adicional levanta questões sobre a extensão dos problemas no ambiente do alojamento e a necessidade de uma fiscalização mais abrangente para garantir a segurança e o bem-estar dos estudantes.

Repercussão e depoimentos

A descoberta dos vídeos e a amplitude das acusações geraram forte repercussão. Nas redes sociais, responsáveis pelas vítimas expressaram sua indignação e a expectativa por providências rigorosas por parte da instituição de ensino. “Depositamos a nossa confiança nessa escola, para depois termos esse resultado que estamos tendo”, alegou um dos familiares, evidenciando a quebra de confiança e a dor causada pelos eventos. Os depoimentos das vítimas e o material probatório reunido no inquérito foram fundamentais para a solicitação e concessão dos mandados de prisão e busca e apreensão, demonstrando a robustez das evidências contra o trio de acusados.

Respostas das instituições

A postura da Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros

Em nota pública divulgada em suas redes sociais, a Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros afirmou repudiar veementemente os fatos. A instituição declarou que toda a unidade escolar foi “fortemente atingida pelas notícias” e que a “surpresa e a indignação nos paralisaram por um momento”. Em resposta à gravidade da situação, a Etec informou ter criado um comitê de crise, cuja primeira medida foi o afastamento imediato dos três alunos envolvidos nos incidentes. O comunicado, assinado pelo diretor Mauro Sérgio Adinolfi, ressaltou o compromisso da unidade em acompanhar de perto a apuração dos fatos, “analisar todas as questões legais” e buscar solucionar o caso, visando “restabelecer a ordem no âmbito escolar”. A escola assegurou que os envolvidos não permanecem mais no convívio escolar, uma medida que, segundo a nota, “deve trazer tranquilidade e paz aos demais alunos para continuidade de seus projetos educacionais”.

Atuação do Centro Paula Souza e Conselho Tutelar

O Centro Paula Souza (CPS), órgão que administra a Etec de Iguape, também se manifestou, informando que apura rigorosamente os fatos para a aplicação das medidas legais cabíveis. O CPS se colocou à disposição das autoridades para colaborar integralmente com as investigações e assegurou que os alunos envolvidos no caso seguirão com atividades remotas até a conclusão dos trâmites legais. A instituição reiterou seu repúdio a “todo e qualquer ato de violência, dentro ou fora do ambiente escolar”, e garantiu estar prestando auxílio aos estudantes e suas famílias afetadas pelos acontecimentos. O Conselho Tutelar de Iguape, por sua vez, destacou que acompanha a situação de perto, atuando para garantir as medidas de proteção aos adolescentes vítimas, acionando os responsáveis e assegurando a efetivação de seus direitos. O órgão informou que apenas uma das vítimas é moradora da cidade, e esse jovem será encaminhado para acompanhamento pela rede de proteção local.

Posicionamento da Secretaria de Segurança Pública

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) também se pronunciou, informando que diligências estão em andamento com o objetivo de esclarecer todos os fatos e identificar as responsabilizações necessárias. A SSP-SP reafirmou o compromisso com a apuração rigorosa e a justiça para as vítimas e suas famílias, garantindo que o caso será tratado com a devida seriedade e que todas as medidas legais serão tomadas para coibir atos de violência em ambientes educacionais e responsabilizar os autores.

Conclusão

A prisão dos estudantes acusados de torturar calouros na Etec de Iguape, no litoral paulista, trouxe à tona a alarmante realidade de abusos e violência disfarçados de “trote” em ambientes escolares. Este caso chocante ressalta a urgência de uma vigilância constante e de políticas claras de combate à violência em instituições de ensino. As respostas rápidas das autoridades policiais e judiciais, em conjunto com as providências da Etec e do Centro Paula Souza, demonstram um esforço conjunto para responsabilizar os agressores e proteger as vítimas. A sociedade aguarda agora que o processo legal siga seu curso, garantindo justiça aos calouros e reforçando a mensagem de que atos de tortura e humilhação são inaceitáveis e terão consequências severas, com o objetivo primordial de restaurar a segurança e a confiança no ambiente educacional.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Q1: Quem são os estudantes envolvidos nas acusações de tortura na Etec de Iguape?
R: Três estudantes foram detidos: Kaue Vinicius Souza, de 18 anos, que foi preso, e dois adolescentes, de 15 e 16 anos, que foram apreendidos e encaminhados à Fundação Casa.

Q2: Como as agressões eram realizadas e como o caso foi descoberto?
R: As agressões faziam parte de um suposto “juramento de trote” e incluíam golpes com alicates, cintos, pedaços de cano, tapas e humilhações, ocorrendo principalmente à noite no alojamento. O caso veio à tona quando a família de uma das vítimas notou um ferimento por alicate no peito do adolescente e, ao ir ao alojamento, descobriu pelos pubianos na cama como forma de punição, revelando a extensão dos abusos a outros calouros.

Q3: Quais medidas foram tomadas pela Etec e pelas autoridades em relação ao caso?
R: A Etec de Iguape criou um comitê de crise e afastou imediatamente os três alunos envolvidos, que seguirão com atividades remotas. O Centro Paula Souza apura rigorosamente os fatos. A Polícia Civil instaurou inquérito por tortura, constrangimento ilegal e lesão corporal. O Conselho Tutelar acompanha e garante proteção às vítimas, e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que diligências estão em andamento para o esclarecimento e responsabilização dos fatos.

Denuncie qualquer forma de violência ou abuso em ambientes escolares. Sua ação pode proteger vidas e garantir um futuro mais seguro para todos os estudantes.

Fonte: https://g1.globo.com

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