© Marcos Oliveira/Agência Senado

Acordo Mercosul-UE: votação na Câmara após Carnaval impulsiona ratificação

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O Acordo Mercosul-União Europeia, um marco nas relações comerciais globais, aproxima-se de uma fase crucial em sua longa jornada de ratificação. Após 26 anos de intensas negociações, o texto chegou ao Congresso Nacional brasileiro e sua votação no plenário da Câmara dos Deputados está prevista para o final do mês de fevereiro, logo após o Carnaval. Este passo no Brasil é estratégico, pois a aprovação nacional serve como um forte catalisador, aumentando a pressão para que os parlamentos dos demais países do Mercosul e o próprio Parlamento Europeu também analisem e ratifiquem o ambicioso pacto. A expectativa é que, uma vez aprovado internamente, o Brasil reforce sua posição como defensor da criação da maior zona de livre comércio do mundo, um movimento que promete redefinir o cenário econômico e geopolítico de ambos os blocos.

A longa jornada de um megabloco comercial

O Acordo Mercosul-União Europeia representa o culminar de mais de duas décadas de diálogo e negociação, simbolizando a ambição de criar uma das maiores zonas de livre comércio do planeta. Concluído em 2019, após inúmeros impasses e recomeços, este pacto comercial bilateral é desenhado para eliminar ou reduzir gradualmente até 90% das tarifas de importação e exportação sobre uma vasta gama de produtos, abrangendo setores que vão desde a agricultura e bens industriais até serviços e compras governamentais.

Negociação e ambições históricas

As tratativas para o Acordo Mercosul-União Europeia começaram em 1999, estabelecendo um percurso marcado por interrupções e reavaliações. Inicialmente visava aprofundar as relações econômicas entre os dois blocos, que já representam parcelas significativas do comércio global. A ideia central sempre foi promover o intercâmbio comercial, facilitar o investimento, e harmonizar regulamentações, beneficiando consumidores e empresas de ambos os lados. Para o Mercosul, o acordo abre um mercado de mais de 450 milhões de consumidores com alto poder aquisitivo na União Europeia, proporcionando maior acesso para produtos agrícolas e manufaturados. Para a UE, o pacto significa acesso privilegiado a um mercado em crescimento na América do Sul e uma fonte diversificada de matérias-primas. A complexidade de harmonizar interesses de 27 países europeus e dos quatro membros plenos do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), juntamente com sensibilidades em setores-chave como a agricultura europeia e a indústria sul-americana, prolongou as discussões por 26 anos, transformando-o em um dos mais longos processos de negociação da história comercial moderna. O texto final, com suas 480 páginas, reflete a abrangência e a profundidade dos compromissos assumidos por ambas as partes, cobrindo não apenas tarifas, mas também propriedade intelectual, barreiras técnicas, compras governamentais, e sustentabilidade.

O rito de ratificação no Brasil

A aprovação do Acordo Mercosul-União Europeia no Brasil é um passo legislativo multifacetado que exige a concordância de diversas instâncias do Congresso Nacional. O processo, que se inicia em comissões e culmina no plenário, é vital para conferir validade jurídica interna ao tratado e, mais amplamente, para impulsionar sua ratificação nos demais países.

Os próximos passos no congresso nacional

Antes de chegar ao plenário da Câmara, o extenso documento do acordo passará por uma análise prévia no Parlamento do Mercosul (Parlasul), especificamente na comissão da representação brasileira. Segundo o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que preside esta comissão, a votação no Parlasul deverá ocorrer em breve, na semana seguinte à data de previsão inicial do texto. Esta etapa é crucial para a emissão de um relatório criterioso, dada a complexidade e as 480 páginas do texto. Após a aprovação no Parlasul, o acordo segue para a Câmara dos Deputados, onde sua votação em plenário está agendada para a última semana de fevereiro, após o recesso de Carnaval. O deputado Hugo Motta, um dos parlamentares envolvidos na articulação da pauta na Câmara, assegurou que o texto será apreciado nesse período. A aprovação na Câmara dos Deputados representa um sinal político forte para a comunidade internacional e é um dos pilares para a validação do acordo em solo brasileiro. Contudo, o rito não se encerra aí; para que o tratado comece a valer no Brasil, ele ainda precisará ser votado e aprovado também no Senado Federal, que revisará a matéria, podendo, inclusive, fazer alterações ou pedir novas análises, embora a tendência seja de agilizar o processo após a aprovação na Câmara. A aprovação brasileira, além de sua importância interna, exerce uma pressão diplomática considerável sobre os demais membros do Mercosul e, crucialmente, sobre os parlamentos europeus, incentivando-os a avançar em seus próprios processos de ratificação.

Desafios e o papel do Tribunal de Justiça da UE

Enquanto o Brasil avança na sua tramitação interna, o processo de ratificação na Europa enfrenta seus próprios desafios. A análise e a votação do Acordo Mercosul-União Europeia pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais dos 27 Estados-membros da UE podem demorar até dois anos. Essa demora deve-se, em parte, ao fato de que o texto foi encaminhado ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). O TJUE é o mais alto órgão judicial da União Europeia e sua função é garantir que a lei da UE seja interpretada e aplicada de forma uniforme em todos os Estados-membros. No contexto de acordos internacionais, o Tribunal pode ser solicitado a emitir um parecer sobre a compatibilidade do acordo com os tratados fundadores da UE e sobre a competência da União para celebrá-lo. O encaminhamento ao TJUE ocorre geralmente quando há questões complexas de direito ou quando se busca uma clarificação sobre se certas partes do acordo podem invadir competências dos Estados-membros, exigindo, portanto, ratificação tanto pelo Parlamento Europeu quanto pelos parlamentos nacionais. Esse processo de escrutínio jurídico detalhado é rigoroso e pode adicionar um tempo considerável ao cronograma de ratificação, especialmente considerando a vasta dimensão do acordo. Além disso, as crescentes preocupações ambientais e sociais na Europa, particularmente em relação ao desmatamento na Amazônia e ao cumprimento de padrões de sustentabilidade, também têm sido fatores que geram debate e podem influenciar o ritmo da aprovação por parte dos legisladores europeus.

Impactos e perspectivas futuras

A efetivação do Acordo Mercosul-União Europeia promete reconfigurar paisagens econômicas e geopolíticas para ambos os blocos. Sua ratificação completa sinalizará um novo capítulo para o comércio internacional, com implicações vastas e multifacetadas.

Benefícios econômicos e geopolíticos

Os benefícios econômicos esperados do Acordo Mercosul-União Europeia são substanciais. A eliminação e redução de tarifas em até 90% dos produtos significa que empresas de ambos os lados terão acesso mais fácil e competitivo aos respectivos mercados. Para o Mercosul, espera-se um aumento significativo nas exportações agrícolas e industriais, com produtos como carne bovina, aves, sucos de frutas, produtos químicos e autopeças ganhando maior competitividade na Europa. Isso pode gerar um impulso na produção, na geração de empregos e no crescimento econômico. Para a União Europeia, o acesso facilitado ao mercado sul-americano abre novas oportunidades para exportadores de produtos industriais de alto valor agregado, maquinaria, produtos químicos, farmacêuticos e automotivos, além de serviços. A maior integração econômica também tende a atrair investimentos diretos estrangeiros em ambas as direções, fomentando a inovação e a transferência de tecnologia.

Do ponto de vista geopolítico, o acordo fortalece a posição de ambos os blocos no cenário global. Para o Mercosul, representa um avanço na diversificação de seus parceiros comerciais e uma redução da dependência de mercados específicos, além de consolidar o bloco como um ator relevante no comércio internacional. Para a União Europeia, o pacto reafirma seu compromisso com o multilateralismo e com a construção de alianças estratégicas em um mundo cada vez mais multipolar. Ele pode servir como um modelo para futuros acordos comerciais, destacando a importância da cooperação e do diálogo para superar barreiras e promover o desenvolvimento sustentável.

A importância da ratificação brasileira

A ratificação do Acordo Mercosul-União Europeia pelo Brasil é mais do que um ato legislativo; é uma declaração de intenções e um potente catalisador para todo o processo. Como a maior economia do Mercosul, a aprovação brasileira envia um sinal inequívoco de compromisso e liderança. Essa aprovação não só valida o acordo internamente, permitindo que suas disposições sejam aplicadas no país, mas também aumenta substancialmente a pressão sobre os demais membros do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) para que procedam com suas próprias ratificações. Além disso, a luz verde do Brasil pode atenuar algumas das resistências e argumentos levantados por setores críticos na Europa, demonstrando a seriedade e o alinhamento do bloco sul-americano com os termos do tratado. A liderança brasileira é, portanto, essencial para manter o ímpeto e pavimentar o caminho para a plena entrada em vigor do acordo em ambos os continentes, concretizando as promessas de crescimento, integração e cooperação que ele carrega.

Perguntas frequentes sobre o Acordo Mercosul-União Europeia

1. O que é o Acordo Mercosul-União Europeia?
É um tratado de livre comércio abrangente que visa eliminar ou reduzir gradualmente até 90% das tarifas de importação e exportação de produtos e serviços entre os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e os 27 Estados-membros da União Europeia. O objetivo é criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, facilitando o comércio, o investimento e a cooperação.

2. Qual é a próxima etapa para a sua aprovação no Brasil?
O acordo passará primeiro pela votação na comissão da representação brasileira no Parlasul (Parlamento do Mercosul). Em seguida, está prevista a votação no plenário da Câmara dos Deputados na última semana de fevereiro, após o Carnaval. Posteriormente, o texto ainda precisará ser votado e aprovado pelo Senado Federal para que comece a valer no Brasil.

3. Por que a ratificação europeia pode demorar?
A ratificação na Europa pode demorar até dois anos devido a diversos fatores. O texto foi encaminhado ao Tribunal de Justiça da União Europeia para um parecer sobre sua compatibilidade com as leis da UE. Além disso, a complexidade de envolver o Parlamento Europeu e os parlamentos nacionais dos 27 Estados-membros, somada a debates sobre questões ambientais e agrícolas, contribui para um processo mais longo.

4. Quais são os principais benefícios esperados do acordo?
Os principais benefícios incluem o aumento do fluxo comercial entre os blocos, maior acesso a mercados para exportadores, atração de investimentos diretos, geração de empregos e maior competitividade para empresas. O acordo também visa fortalecer a posição geopolítica de ambos os blocos, promovendo a diversificação de parceiros comerciais e a cooperação em áreas como sustentabilidade.

Mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta histórica votação e os impactos que o Acordo Mercosul-União Europeia trará para o cenário econômico global.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.