Um estudo recente do MapBiomas revela um panorama preocupante sobre a transformação das favelas e comunidades brasileiras. Em apenas 40 anos, entre 1985 e 2025, a área urbanizada nesses territórios registrou um crescimento vertiginoso, quase triplicando, enquanto a vegetação por hectare urbanizado diminuiu drasticamente. Essa expansão, acompanhada pela perda de cobertura verde, acende um alerta sobre a vulnerabilidade dessas regiões a eventos climáticos extremos e a qualidade de vida de seus moradores.
Os dados, provenientes da Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil, divulgados pelo MapBiomas, traçam um cenário detalhado de como o crescimento urbano em favelas se deu e as consequências ambientais e sociais dessa mudança. O coordenador do tema Urbano do MapBiomas, Júlio Cesar Pedrassoli, enfatiza que essa retração das áreas verdes torna as comunidades mais suscetíveis aos impactos das alterações climáticas, exigindo uma reavaliação urgente do planejamento urbano.
A Expansão Acelerada e a Perda de Biodiversidade Local
A urbanização em favelas no Brasil passou de 60,2 mil hectares em 1985 para expressivos 151,7 mil hectares em 2025, um aumento de mais de 150%. Paralelamente a essa expansão, a presença de vegetação nos espaços urbanizados dessas comunidades sofreu uma redução considerável, caindo de 0,060 para 0,040 hectare de verde por hectare urbanizado no mesmo período. É importante notar que, embora popularmente associadas a áreas densamente urbanas, nem todas as favelas se encaixam estritamente nessa definição, sendo caracterizadas pela ausência de alta concentração de edificações, vias e infraestrutura.
O levantamento mostra que, das 12,3 mil favelas existentes no país em 2025, distribuídas em 651 municípios, uma parcela significativa — 60,3% da urbanização observada nesses locais — surgiu após 1985. Nesse intervalo de quatro décadas, impressionantes 42,4% dessas comunidades pelo menos dobraram de tamanho, demonstrando a intensidade e a velocidade da ocupação e adensamento.
Favelas: De Espaços Verdes a Ilhas de Calor Urbanas
A análise comparativa entre favelas e outras áreas urbanas do país revela uma inversão dramática. Em 1985, as favelas detinham 43% mais vegetação intraurbana do que o restante das cidades. Contudo, em 2025, essa realidade se inverteu: a disponibilidade de vegetação intraurbana nas favelas era 15% menor do que em outras áreas urbanizadas. Esse declínio é acentuado pela diferença nas taxas de crescimento da vegetação: enquanto nas favelas o verde intraurbano cresceu apenas 1,7 vezes, nas demais áreas urbanizadas o aumento foi de 2,6 vezes.
A expansão das áreas sem vegetação também evidencia essa disparidade. As zonas urbanizadas desprovidas de verde nas favelas cresceram 2,6 vezes, superando o crescimento de 2,3 vezes observado nas áreas urbanizadas fora delas. Essa disparidade contribui diretamente para a formação de ilhas de calor, onde a temperatura no verão pode ser até 7 °C mais elevada em regiões com menos de 10% de cobertura vegetal, quando comparadas a áreas não urbanizadas com vegetação abundante.
Um Alerta Nacional: A Perda Generalizada de Vegetação Urbana
O fenômeno de perda de vegetação não se restringe apenas às favelas, mas reflete uma tendência nacional. O crescimento total das áreas urbanizadas no Brasil foi de 132% no período analisado, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. Apesar dessa expansão, a participação das favelas no total das áreas urbanizadas do país cresceu modestamente, de 3,2% em 1985 para 3,4% em 2025. O dado mais alarmante, contudo, é a redução global da vegetação urbana total – que inclui as áreas intraurbanas e periurbanas –, diminuindo de 6,5 milhões para 4,1 milhões de hectares, uma queda de 35,9%.
Com essa redução, a área sem vegetação nas regiões urbanizadas do Brasil atingiu 4,24 milhões de hectares em 2025. Júlio Cesar Pedrassoli destaca um marco histórico preocupante: “Pela primeira vez na série, a área urbanizada sem vegetação supera a área da vegetação urbana. Em 1985, a vegetação era 3,5 vezes maior que a área sem vegetação. É um marco que mostra o quanto o desenho das nossas cidades depende do quanto de verde conseguimos preservar e, ao mesmo tempo, incorporar na mancha urbana.”
Caminhos para a Resiliência Climática e Qualidade de Vida
A perda de vegetação nas favelas e em todo o ambiente urbano brasileiro exige uma profunda reflexão sobre resiliência climática, soluções baseadas na natureza e a qualidade de vida nas cidades. Para adaptar os centros urbanos às mudanças do clima, é imperativo que os mapas de planejamento e as estratégias de intervenção incluam as favelas como prioridade, direcionando esforços para a recuperação e criação de áreas verdes.
Os dados do MapBiomas servem como um chamado urgente para que políticas públicas e iniciativas comunitárias trabalhem em conjunto para reverter esse cenário. A promoção de arborização urbana, a criação de parques e jardins nas comunidades e a conscientização sobre os benefícios da vegetação são passos cruciais para construir cidades mais sustentáveis, equitativas e capazes de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, garantindo um ambiente mais saudável para todos os seus habitantes.
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