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© Paulo Pinto/Agência Brasil

A Memória Insubmersa: Instalação ‘O Barco’ de Grada Kilomba no Sesc Pompeia Desafia Narrativas da Escravidão

O Sesc Pompeia, em São Paulo, abre suas portas para uma experiência artística e histórica profundamente impactante com a exposição da obra 'O Barco', da renomada artista portuguesa Grada Kilomba. A instalação imersiva não é apenas uma peça de arte, mas um poderoso manifesto que confronta as marcas indeléveis do tráfico transatlântico de africanos escravizados, um período que a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) qualificou como o mais grave crime contra a humanidade. Durante aproximadamente quatro séculos, milhões de africanos foram sequestrados e forçadamente transportados para as colônias europeias, com o Brasil emergindo como o principal destino, recebendo mais de 4,8 milhões de pessoas em condições desumanas.

A proposta de Kilomba transcende a mera representação, lançando uma provocação fundamental ao público: o que o fundo do oceano revelaria se hoje suas águas fossem esvaziadas? Essa questão central serve como ponto de partida para uma reflexão sobre as histórias esquecidas e as violências silenciadas, desafiando as narrativas heroicas frequentemente associadas às grandes navegações e descobertas.

A Obra 'O Barco': Uma Denúncia Escultórica da Arquitetura da Violência

Materializando a dor e a memória, 'O Barco' é uma obra de natureza escultórica e performática que ocupa uma vasta área de 220 metros quadrados, estendendo-se por 32 metros de comprimento. A instalação é composta por 134 blocos de madeira queimada, meticulosamente dispostos para delinear a silhueta da parte inferior de uma grande embarcação. Com essa representação, Kilomba busca expor a arquitetura brutal dos porões dos navios negreiros, espaços projetados para acomodar os corpos de milhões de africanos escravizados, evidenciando a desumanização inerente ao sistema de tráfico transatlântico.

A artista, ao projetar o que estava "no fundo" desses barcos muitas vezes glorificados em monumentos e histórias oficiais, convida a um questionamento sobre a verdadeira natureza da "glória" e da "expansão" que marcaram esse período. Sua intenção é desvendar as narrativas ocultas por trás do imaginário romântico do descobrimento, revelando as passagens de corpos humanos que o oceano, se pudesse falar, testemunharia em sua profundidade.

Diálogos com o Passado e o Presente: Da Mitologia Grega às Travessias Atuais

A concepção de 'O Barco' é fruto de uma profunda e abrangente pesquisa de Grada Kilomba, que mergulhou em campos como botânica, história e nas complexas travessias transatlânticas. A obra também busca inspiração na tragédia grega de Antígona, questionando quem tem o direito de ser enterrado com honras, de ser lembrado e de ter um lugar para o luto e a celebração. Essa conexão ressalta a importância de resgatar e ritualizar histórias que foram deliberadamente esquecidas ou proibidas de serem recordadas, pois o ato de lembrar é fundamental para a construção da memória coletiva.

Para Kilomba, o oceano não é apenas um vasto corpo de água, mas um imenso cemitério que guarda as vidas perdidas não apenas na escravização e no colonialismo, mas também em tragédias contemporâneas. Ela traça um paralelo contundente entre o passado e o presente, lembrando que múltiplos barcos, atualmente, continuam a atravessar as águas globais, carregando indivíduos que fogem de genocídios, massacres, crises climáticas, migrações forçadas, guerras e conflitos. Assim, os mesmos corpos, em diferentes épocas, continuam a sucumbir ao fundo do mar, reforçando a ideia de uma violência cíclica e persistente.

A Poesia como Vácuo de Memória: Adaptação e Inscrições Multilíngues

Devido às suas grandes dimensões, a instalação 'O Barco' teve de ser adaptada para se adequar ao espaço do galpão do Sesc Pompeia. Essa adaptação, embora necessária, carrega um simbolismo próprio: assim como os navios da era da escravidão não chegavam aos seus destinos com toda a sua "população" intacta, a obra incompleta no espaço reflete a perda e a invisibilidade de parte da história. Essa reflexão sobre o que se torna invisível ou ausente é parte integrante da mensagem de Kilomba, que vê nela uma metáfora para a fragmentação da memória e a incompletude das narrativas oficiais.

No coração da instalação, 18 blocos de madeira queimada ostentam um poema gravado em dourado, de autoria da própria artista. Os versos foram cuidadosamente traduzidos para diversos idiomas – iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria – ressaltando a universalidade e a multiplicidade das vozes e experiências. Trechos como "Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida" encapsulam a essência da obra: a interconexão intrínseca entre a existência individual, a construção da memória, o perigo do esquecimento e as chagas históricas que persistem quando essas memórias são apagadas.

Em suma, 'O Barco' transcende a mera exposição artística para se tornar o que Grada Kilomba define como o "inconsciente da nossa história". A artista, com sua visão perspicaz, aponta para uma história de mais de 400 anos de escravidão no projeto europeu que foi convenientemente apagada e tornada invisível, não documentada nem estudada. 'O Barco' no Sesc Pompeia não é apenas uma denúncia, mas um chamado urgente à conscientização e à reescrita de uma história que, para ser verdadeiramente compreendida, exige que mergulhemos no que o oceano guardou e o que a terra ainda insiste em revelar.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br