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© Tomaz Silva/Agência Brasil

A Fé como Imperativo Eleitoral: 81% dos Brasileiros Exigem Crença em Deus de Seus Candidatos

Um levantamento inédito revela a profunda influência da crença religiosa no cenário político brasileiro, apontando que uma esmagadora maioria de 81% dos eleitores considera fundamental que seus candidatos nas eleições professem fé em Deus. Esta percepção, que transcende estratos sociais mas se acentua nas camadas de menor renda, lança luz sobre a complexa interação entre religião, política e as expectativas do eleitorado no país.

Os dados, resultantes de uma pesquisa do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar) da Universidade Federal Fluminense (UFF), foram apresentados no 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade: religião, política e valores, sediado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo não apenas quantifica a exigência divina na política, mas também desvela nuances sobre a identidade de 'Deus' e a relação com as instituições religiosas.

A Fé como Pré-Requisito Político e Social

A pesquisa do LePar/UFF destaca que a exigência de que candidatos acreditem em Deus é significativamente mais acentuada entre os brasileiros de classes mais vulneráveis, onde 89% dos que recebem até um salário mínimo compartilham dessa visão. Em contraste, entre os mais abastados (com rendimentos entre 10 e 20 salários mínimos), o índice cai para 57%, evidenciando uma clivagem socioeconômica na importância atribuída à fé religiosa na esfera política.

Além da expectativa eleitoral, o estudo aprofunda a percepção da sociedade sobre o papel da divindade. A análise indica que, majoritariamente, a figura de Deus referenciada é a do Deus cristão. Setenta e quatro por cento dos entrevistados concordam que a crença em Deus torna as pessoas melhores, índice que alcança 86% entre a população de menor renda. Adicionalmente, 82% dos brasileiros defendem que as escolas devem ter um papel ativo no ensino da crença em Deus a crianças e adolescentes, refletindo um desejo de integração da fé na formação educacional.

Paradoxos da Confiança: Entre a Fé Pessoal e as Instituições

Curiosamente, embora a crença em Deus seja um pilar tão valorizado na vida pública e pessoal, essa reverência não se traduz diretamente em uma confiança robusta nas instituições religiosas. A socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, pontua que, apesar da significativa valorização de Deus, a confiança nas igrejas – que cotidianamente tecem a vida religiosa – não é proporcionalmente maior.

O levantamento revela que a Igreja Católica é a instituição religiosa que angaria a maior credibilidade no Brasil, com 56% de confiança. Em seguida, aparecem as igrejas protestantes, com 51%, e os centros kardecistas, que registram 19% de credibilidade. Esse contraste entre a importância da fé e a desconfiança institucional sublinha uma complexidade na relação dos brasileiros com a religião organizada.

O Desafio da Laicidade Estatal no Imaginário Social

O estudo também aborda a compreensão e aceitação do Estado laico, um dos fundamentos da democracia brasileira. Metade da amostra da pesquisa, 54%, manifesta a defesa de que o Estado não deveria ser laico. Christina Vital observa que há uma notável confusão sobre o que a laicidade realmente significa, com muitos entrevistados apresentando definições que não correspondem à separação entre religião e Estado.

Essa ambiguidade na compreensão da laicidade reflete a profunda imbricação da religião no tecido social e político brasileiro. A percepção de que a fé deve guiar as esferas públicas e educacionais colide com o princípio constitucional de um Estado neutro em relação às diversas crenças, evidenciando um debate fundamental sobre os limites e a atuação da religião na esfera pública.

Religião na Estratégia Política: A Instrumentalização da Extrema Direita

Michel Gherman, líder do Observatório das Crises das Democracias das Américas (UNLP) da UFRJ, interpreta esses dados como um indicativo de como grupos de extrema direita têm instrumentalizado as religiões, explorando o anseio por um retorno a um 'tempo sagrado'. Ele ressalta que não foi a ascensão de um cristianismo protestante que fortaleceu a extrema direita no Brasil, mas, inversamente, foi a extrema direita que soube capitalizar certos valores e percepções religiosas para promover seu 'projeto de passado'.

Gherman exemplifica essa instrumentalização citando o fato de que sete em cada dez candidatos políticos no Rio de Janeiro afirmam acreditar em uma 'conspiração progressista' visando a degeneração moral da sociedade, especialmente através da escola. Ele explica que o desejo de ordem inerente a certas práticas religiosas pode levar à crença em 'algo que não vemos, mas que governa as coisas', um terreno fértil para teorias conspiratórias que a extrema direita habilmente utiliza para se fortalecer.

A Retórica da Perda e a Identidade Política

Complementando a análise, Christina Vital menciona a existência de uma retórica universal da perda de algo no presente que existia no passado. Este 'medo' transversaliza aspectos como a cor da pele, classes sociais e gênero, e embora não possua uma conformação política única, manifesta contornos tanto à esquerda quanto à direita. No campo do gênero, por exemplo, essa retórica se expressa na ideia de que as mulheres teriam 'adquirido espaços sociais que não deviam', revelando uma nostalgia de hierarquias sociais pretéritas.

Lucio Rennó, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), reforça a existência de uma regularidade estatística entre ser evangélico e votar na extrema direita. Para ele, isso sinaliza uma forte relação de identidade: os brasileiros tendem a votar em candidatos que percebem como semelhantes a si, incluindo suas convicções religiosas e valores morais.

Em suma, o levantamento do LePar/UFF desvela um Brasil onde a fé em Deus não é apenas uma questão de crença pessoal, mas um critério decisivo no julgamento de candidatos e na visão de mundo. A complexidade se acentua na desconexão entre essa valorização pessoal e a confiança nas instituições religiosas, culminando na instrumentalização da fé por movimentos políticos. As descobertas apontam para um cenário eleitoral onde o sagrado e o secular se entrelaçam de maneiras profundas, moldando o debate sobre a laicidade do Estado e a identidade política do eleitor brasileiro.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br