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© Woltaire Masaki/Divulgação

A Arte da Retomada: Katxuyana e Kahyana Recontam sua História de Resistência no Museu Goeldi

Uma poderosa narrativa de resistência, resiliência e reconexão com o território ancestral será apresentada ao público a partir do dia 25 deste mês em Belém. A exposição <b><i>Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros</i></b>, no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, oferece um panorama profundo da trajetória dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana, que, após décadas de luta, celebram a retomada de suas terras. Esta iniciativa cultural não apenas exibe artefatos e memórias, mas funciona como um portal para compreender a violência sofrida e a inabalável persistência pela manutenção de suas existências, conforme destacado pela liderança indígena Angela Kaxuyana, da Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana (Aikatuk).

A Mostra "Katxar kum neero": Um Mergulho na Cultura e Resistência

A exposição, que permanecerá aberta ao público até 30 de abril de 2027 no Centro de Exposições Eduardo Galvão, dentro do Parque Zoobotânico, é um testemunho visual e narrativo. Ela reúne um vasto acervo que inclui fotografias históricas, relatos orais e uma rica coleção de artefatos. Estas peças, algumas produzidas desde a década de 1960 e outras contemporâneas, ilustram a cultura viva e a complexa relação dos Katxuyana e Kahyana com seus locais de pertencimento. Um dos elementos de maior destaque é o <b><i>txamatxama</i></b>, um artefato plumário de significado profundo, utilizado na diplomacia interétnica e na comunicação com outros seres, sublinhando sua importância cosmológica e sociopolítica.

Décadas de Desarraigo e a Jornada pela Retomada Territorial

A história por trás da exposição remonta a um período de profunda violência e deslocamento. Os Katxuyana e Kahyana, que historicamente compartilhavam o oeste do Pará, na divisa com o Amazonas, com outros dezesseis povos – alguns deles isolados –, foram compulsoriamente removidos de suas terras tradicionais na década de 1960. Essa ação, orquestrada pelo regime militar, fazia parte de um projeto maior de colonização da Amazônia, que resultou na dispersão e isolamento de comunidades inteiras. Apesar da distância física imposta, a conexão com o território e os antepassados jamais foi rompida, alimentando a resistência e a esperança pela reversão dessa injustiça.

O Longo Caminho da Demarcação e a Reconquista

A resiliência desses povos culminou em um marco crucial quando, em 2008, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) iniciou o processo de demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana. Este vasto território, com cerca de 2 milhões de hectares, abrange áreas dos municípios de Faro e Oriximiná, no Pará, e Nhamundá, no Amazonas. A batalha legal e burocrática pela devolução do território foi longa, sendo oficialmente finalizada apenas em 2025, com a homologação através de um decreto presidencial. Este reconhecimento representa a última e decisiva etapa, simbolizando a plena reconquista da autonomia territorial e a possibilidade de reestabelecer plenamente seus modos de vida ancestrais.

Curadoria Compartilhada: Pontes entre o Passado e o Presente

A riqueza e a profundidade da exposição são também reflexo de uma curadoria meticulosa e colaborativa. O projeto foi desenvolvido em parceria entre o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) e o próprio Museu Paraense Emílio Goeldi, garantindo uma perspectiva autêntica e representativa. A seleção das peças não se limita a um período, mas busca traçar um contínuo temporal. Inclui artefatos produzidos pelos Katxuyana e Kahyana nos dias atuais, que são parte integrante de seu cotidiano e de suas práticas culturais, lado a lado com itens históricos. Estes últimos provêm da Coleção Etnográfica do Museu Goeldi, muitos deles coletados pelo pesquisador Protásio Frikel ainda na década de 1960, como explica Lúcia van Velthem, museóloga e pesquisadora da instituição. Essa dualidade ressalta a manutenção dos vínculos com a terra, os rios, os antepassados e suas formas de existir, mesmo durante os períodos de separação.

A exposição <b><i>Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros</i></b> transcende o papel de mera mostra de artefatos. Ela se firma como um evento de grande relevância sociopolítica e cultural, oferecendo ao público uma imersão na memória, resistência e identidade dos povos Katxuyana e Kahyana. Ao longo de quase três anos, os visitantes terão a oportunidade singular de testemunhar a força de uma cultura que, apesar das adversidades históricas, reafirma sua existência e celebra a reconquista de seu lar, reforçando a importância da demarcação de terras indígenas e da valorização da diversidade cultural brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br