Há exatas cinco décadas, um evento marcava a escalada da violência política em um dos períodos mais sombrios da história brasileira: o atentado a bomba contra a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no coração do Rio de Janeiro. No próximo dia 19 de agosto, a entidade recorda o cinquentenário desse ataque, que se tornou um símbolo da tentativa de sufocar vozes democráticas em plena ditadura militar (1964-1985). Para perpetuar a memória e a reflexão sobre a liberdade de imprensa, a ABI lançou uma edição especial de seu tradicional Boletim, resgatando a história e suas lições para os dias atuais.
O Atentado: Uma Agressão à Liberdade de Expressão
A explosão que chocou o país ocorreu em 19 de agosto de 1976, no sétimo andar do edifício de número 71 da Rua Araújo Porto Alegre. O artefato destruiu dois banheiros próximos à sala da presidência e causou danos significativos em cômodos vizinhos, no elevador e em outros pavimentos do prédio. Embora a intensidade do ataque tenha sido considerável, nenhum dos ocupantes da histórica sede da ABI, inaugurada em 1938 e um marco da arquitetura moderna, sofreu ferimentos, um alívio em meio ao clima de terror imposto.
A autoria do atentado foi reivindicada por um grupo paramilitar de extrema-direita, a Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), que deixou um panfleto no local após a detonação. A organização acusava a ABI de ser 'totalmente dominada pelos comunistas' e declarava o ataque como uma 'primeira advertência'. Essa ação direta contra uma das mais importantes instituições da sociedade civil revelou a intolerância e a violência direcionada a qualquer manifestação contrária ao regime, que buscava silenciar a defesa dos direitos humanos e da livre manifestação do pensamento.
A ABI como Alvo e Símbolo da Resistência Democrática
O ataque à sede da ABI não foi um episódio isolado, mas uma clara demonstração do papel central que a entidade desempenhava na resistência à ditadura. Ao longo dos anos de chumbo, a 'Casa do Jornalista' abrigou importantes discussões e se posicionou firmemente em defesa da liberdade de imprensa, tornando-se um bastião contra a censura e a opressão. Na época do atentado, a ABI era presidida pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho, e contava em seus quadros com nomes como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho, figuras proeminentes na luta pela democracia.
Para o atual presidente da ABI, Octávio Costa, o atentado de 1976 foi uma resposta dos grupos radicais de direita aos incipientes movimentos de abertura política, conhecidos como 'distensão' do regime. Ao se manter vigilante e crítica, a associação se tornou um alvo direto daqueles que desejavam perpetuar o autoritarismo, reafirmando seu compromisso histórico com a defesa das liberdades civis e do direito à informação, fundamentos para qualquer sociedade democrática.
Documentos Revelam a Vigilância e a Impunidade no Regime
A edição especial do Boletim da ABI, que marca o cinquentenário do atentado, é um trabalho de pesquisa minucioso, fundamentado em documentos históricos e relatórios confidenciais. Uma das principais fontes foi a própria edição de julho-agosto de 1976 do Boletim, publicada logo após o terror. Além disso, a pesquisa se aprofundou em documentos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura militar, como um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI) de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas do Arquivo Nacional.
Esses registros do SNI revelam um impressionante grau de detalhamento sobre as atividades, reuniões e movimentações da ABI, evidenciando a extensão do aparato de vigilância política que operava no período. Contudo, apesar de toda essa capacidade de monitoramento, o aparelho repressivo da ditadura nunca chegou aos verdadeiros autores do atentado à ABI, nem de outros ataques similares. Essa impunidade sublinha a complexa trama de poder e a conivência, ou mesmo a participação, de elementos do próprio Estado nos atos de terrorismo contra adversários políticos, mantendo uma sombra sobre a responsabilidade.
Uma Onda de Terror e o Contexto da 'Distensão'
O atentado à ABI não foi um incidente isolado, mas parte de uma série de ações terroristas que visavam impedir a prometida 'distensão' do regime, defendida pelo general Ernesto Geisel desde que assumira a Presidência em 1974, com a proposta de uma abertura 'lenta, gradual e segura'. No mesmo dia do ataque à ABI, uma bomba atribuída à AAB foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio, falhando em detonar devido a uma falha mecânica.
Os dias seguintes foram marcados por mais violência: em 20 de agosto, coquetéis molotov foram lançados na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, causando um princípio de incêndio. Duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba caseira explodiu de madrugada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo. O Jornal do Brasil, um dos periódicos mais influentes da época, reportou nove atentados terroristas no Rio de Janeiro entre agosto e novembro de 1976, com oito deles assumidos pela AAB, configurando um cenário de terrorismo político coordenado.
Para marcar a data e reforçar a mensagem de repúdio ao terrorismo e valorização da democracia, a ABI realizará um ato solene no próximo dia 19, às 17h, no sétimo andar de seu prédio. Na ocasião, será afixada uma placa comemorativa, eternizando a memória do atentado e reiterando o compromisso da 'Casa do Jornalista' em permanecer vigilante diante de qualquer ameaça à liberdade e aos valores democráticos.
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