O Bloco da Vaca, um vibrante símbolo do carnaval em Artur Nogueira, interior de São Paulo, prepara-se para mais uma edição que marca quase um século de história. Neste domingo, 14 de fevereiro, a partir das 18h, a cidade se transformará em um palco para a 96ª celebração de uma tradição que remonta a 1930. Mais do que um simples evento carnavalesco, o Bloco da Vaca representa uma herança cultural profunda, enraizada na identidade e nas memórias de gerações de moradores. Com seu batuque contagiante e a divertida simulação de uma corrida de touros pelas ruas, o bloco demonstra a força de um legado transmitido de pai para filho, de avô para neto, mantendo viva uma manifestação popular única no cenário festivo paulista.
A tradição que transcende gerações
Para os habitantes de Artur Nogueira, o Bloco da Vaca é mais do que um evento anual; é parte intrínseca de suas vidas e da história local. O som do batuque, a energia da multidão correndo pelas avenidas e os imponentes bonecos das vacas são elementos que evocam memórias da infância e reforçam a identidade cultural da cidade. Essa tradição, que se iniciou há 96 anos, continua sendo passada e reverenciada por sucessivas gerações, solidificando seu lugar no calendário festivo e afetivo da comunidade.
Herança familiar na bateria
David Allan Martins, de 41 anos, é um testemunho vivo de como essa tradição se mantém firme dentro das famílias. Neto de um antigo integrante da bateria, David cresceu embalado pelo ritmo característico que ecoava pelas ruas de Artur Nogueira. Sua jornada no bloco começou ainda na infância, frequentando os ensaios e se deixando envolver pela magia do carnaval. Hoje, David acumula 28 anos de participação e, há 12, comanda a bateria como mestre. “Quando eu era mais novinho, escutava o barulho da bateria e me chamava a atenção. A gente vinha para os ensaios e eu fui me envolvendo”, narra ele, com a voz carregada de emoção.
Ao seu lado, a filha Lara Chichurra Martins, de apenas 12 anos, segue os passos do pai e do avô. Ela participa do Bloco da Vaca praticamente desde o nascimento, imersa nesse universo festivo. Lara já aprendeu a auxiliar na pintura dos bonecos e a tocar diferentes instrumentos, mostrando um talento precoce e um amor pela festa. Para ela, o ponto alto é observar a “vaca” finalizada ganhar as ruas e contagiar a multidão com sua alegria. “É uma emoção, né? Porque daí você vê todo mundo junto, se unindo, na hora sai tudo perfeito, é muito bom”, afirma a jovem, demonstrando a conexão profunda com o evento. A participação de David e Lara exemplifica o elo indissolúvel entre o Bloco da Vaca e a sucessão de gerações que o mantém vibrante.
Novas vozes e a paixão coletiva
Além da herança familiar, o Bloco da Vaca tem a capacidade de atrair novos membros, movidos pela curiosidade e pelo forte senso de comunidade que permeia o evento. Muitos jovens e adultos descobrem ali seus primeiros talentos musicais ou artísticos, aprendendo a tocar um instrumento ou a contribuir com a confecção dos bonecos. Pedro Henrique Scarpa Mansur é um desses exemplos. Há 12 anos no bloco, ele brinca o carnaval de Artur Nogueira desde criança, inicialmente ao lado do irmão mais velho. Pedro começou a tocar na bateria e, há oito anos, também contribui ativamente na confecção das vacas, um trabalho artesanal e meticuloso.
Durante o desfile, Pedro assume o papel de “anjo” da vaca, uma função crucial de proteção e suporte ao boneco principal. Sua paixão pela tradição é evidente: “Não tem uma vez que eu toco essa bateria que eu não arrepio tudo quanto é pelo do braço. É muito gratificante ver todo mundo na rua esperando a vaca passar, sair correndo, tomar pancada… Se você for explicar isso para alguém de fora, vai falar que você é louco. Mas nossa, é uma delícia, eu adoro isso aqui”, confessa Pedro, com um brilho nos olhos que revela a intensidade de sua conexão com o bloco. A narrativa de Pedro reflete o entusiasmo coletivo e a dedicação voluntária que são o motor dessa manifestação cultural.
O coração artesanal e a identidade comunitária
A verdadeira força do Bloco da Vaca reside na participação popular e no espírito colaborativo da comunidade. Segundo os organizadores, todo o trabalho envolvido na realização do evento — desde a construção minuciosa dos bonecos das vacas até os exaustivos ensaios da bateria — é realizado de forma voluntária. Essa dedicação espontânea é o que garante a perpetuação da festa, ano após ano.
A construção das vacas
O processo de criação dos bonecos das vacas é um ritual que se inicia meses antes do Carnaval. Trata-se de um trabalho inteiramente artesanal, que mantém as técnicas tradicionais de décadas atrás. Os voluntários se dedicam à colheita do cipó na mata, que serve como estrutura base. Em seguida, a madeira é incorporada, e as formas são preenchidas com espuma e recobertas com tecido. A costura e a pintura, feitas à mão, dão vida e personalidade a cada boneco. Essa meticulosa construção reflete a dedicação e o carinho com que a comunidade abraça sua tradição.
Leandro Queiroz, um dos organizadores do bloco, enfatiza a recompensa imaterial desse esforço coletivo. “Tem a satisfação de fazer parte, a satisfação da amizade, do coletivo, e a satisfação maior de estar podendo contribuir para essas coisas. Para ser sincero, você não vai conseguir entender se você não vir”, comenta ele, convidando à imersão na experiência única do bloco. A entrega e o prazer de contribuir são os pilares que sustentam a festa.
Inspirado nas touradas
A rica história do Bloco da Vaca remonta aos imigrantes espanhóis que se estabeleceram em Artur Nogueira, especialmente as famílias Puzo e Montóia. Inspirados pelas touradas e, mais especificamente, pela famosa festa de San Fermín, em Pamplona, esses pioneiros adaptaram a tradição para o contexto local. Criaram uma versão própria da brincadeira, substituindo os touros reais por uma vaca de pano, que “corre” atrás da população em um ato de alegria e folia. Essa inspiração europeia, reinterpretada e adaptada, deu origem a uma tradição autenticamente brasileira e nogueirense.
Décadas depois, a estrutura artesanal dos bonecos e a essência da brincadeira permanecem praticamente inalteradas. A continuidade dessa prática é um tributo à resiliência da cultura e à força da memória coletiva, que se manifesta a cada carnaval.
Legado e futuro de uma paixão popular
O Bloco da Vaca não é apenas um evento carnavalesco; é um patrimônio vivo de Artur Nogueira, uma celebração da identidade, da história e do espírito comunitário. A dedicação voluntária, a transmissão geracional do conhecimento e a paixão dos participantes garantem que essa tradição perdure. É uma prova da capacidade de uma comunidade em manter suas raízes vivas, adaptando-as e reinventando-as a cada ano, mas sempre honrando sua origem. A pequena Lara, com sua visão de futuro, sintetiza o anseio de todos: “Eu gostaria de continuar acompanhando, passando de geração em geração, para que nunca acabe, para sempre, nunca acabe”. Esse desejo coletivo é a força motriz que impulsiona o Bloco da Vaca para seus próximos séculos de existência.
Perguntas frequentes sobre o Bloco da Vaca
O que é o Bloco da Vaca de Artur Nogueira?
É um bloco de carnaval tradicional de Artur Nogueira (SP) que simula uma corrida de touros com bonecos de vacas feitos artesanalmente, acompanhado por uma bateria de samba e foliões.
Quando e onde acontece o Bloco da Vaca?
O bloco ocorre anualmente durante o período de carnaval em Artur Nogueira, interior de São Paulo. A edição mais recente aconteceu neste domingo, 14 de fevereiro, a partir das 18h.
Como o Bloco da Vaca surgiu?
A tradição teve início em 1930, inspirada nas touradas espanholas e na festa de San Fermín, em Pamplona, trazidas por imigrantes espanhóis para Artur Nogueira. Eles adaptaram a ideia para uma versão local e lúdica com bonecos de pano.
Como é feita a “vaca” do bloco?
Os bonecos das vacas são feitos artesanalmente com materiais como cipó, madeira, espuma e tecido. O processo de confecção é voluntário e começa meses antes do carnaval, mantendo as técnicas tradicionais.
Descubra e apoie as manifestações culturais que fortalecem a identidade de sua comunidade. Participe e celebre a tradição!
Fonte: https://g1.globo.com
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