© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Imersão na Fiocruz inspira jovens a desbravar a ciência brasileira

ANUNCIO COTIA/LATERAL

A curiosidade inata, muitas vezes vista como uma “mania de misturar coisas”, pode ser a centelha que acende a paixão por uma carreira científica. Para Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira, de 17 anos, essa “mania” infantil, inicialmente vista com humor por sua mãe, transformou-se em uma vocação séria. Hoje, prestes a concluir o ensino médio técnico em Química, Raíssa é um exemplo vivo do impacto de iniciativas que celebram e impulsionam o papel das mulheres na ciência. Este movimento é particularmente relevante no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado globalmente em 11 de fevereiro. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reconhecendo a importância de combater a desigualdade de gênero nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), oferece um programa de imersão que tem se mostrado fundamental para inspirar a próxima geração de cientistas.

Jovens mentes desvendam o futuro da ciência

Histórias de inspiração: da curiosidade à vocação

A trajetória de Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira ilustra perfeitamente como a semente da ciência pode ser plantada e florescer. Desde criança, sua inclinação para experimentar e observar as reações entre diferentes elementos domésticos lhe rendeu o apelido carinhoso de “cientista maluca” por sua mãe, que, em tom de brincadeira, “forçou” a filha a seguir o caminho da química. Hoje, sem qualquer “maluquice”, Raíssa se prepara para uma jornada científica promissora, um testemunho do poder da exposição e do estímulo. Ela foi uma das muitas jovens inspiradas pela imersão de verão da Fiocruz, participando em 2025 e repetindo a experiência este ano, inclusive convidando sua amiga, Beatriz Antônio da Silva, também de 17 anos e estudante do mesmo instituto federal.

Beatriz, por sua vez, encontrou sua paixão pela ciência através de uma professora de física, que desenvolve um projeto voltado para incentivar meninas negras na área. A docente, com suas “boas histórias” e relatos de superação de preconceitos e negligência como uma das poucas mulheres em sua turma de faculdade, tornou-se um farol, desejando “abrir portas” para as novas gerações. Essa rede de apoio entre mulheres cientistas é um pilar essencial na Fiocruz, como observa Beatriz Duqueviz, analista de gestão em saúde pública e coordenadora do Programa Mulheres e Meninas na Ciência da instituição.

Outra participante, Duane de Souza, 17 anos, de Bangu, soube do programa por meio das redes sociais. Embora já soubesse que queria seguir biologia, a imersão na Fiocruz ofereceu a ela a clareza sobre qual área específica dentro da biologia poderia explorar. “Antes, eu achava que fazer pesquisa era uma coisa muito complicada, mas aqui eu percebi que não é exatamente assim”, relata Duane, destacando a desmistificação do processo científico. Sulamita do Nascimento Morais, também de 17 anos, que hoje é bolsista de iniciação científica e já participou de diversas atividades de estímulo à ciência, encontrou sua paixão pela ciência da computação. Ela expressa a importância de quebrar tabus sociais de que tecnologia é “coisa de menino”, provando que “dá, sim, pra você seguir esses trabalhos, se impor e ter voz sendo mulher”. Essas histórias ressaltam como a imersão não apenas orienta, mas também empodera as jovens a desafiar estereótipos.

Fiocruz e o empoderamento feminino na ciência

Um programa que transforma perspectivas e abre portas

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, nasceu da necessidade premente de chamar a atenção para a persistente desigualdade de gênero nas disciplinas STEM. Em resposta a essa urgência global, a Fundação Oswaldo Cruz, uma instituição centenária com profundo compromisso social, lançou em 2020 seu próprio Programa Mulheres e Meninas na Ciência. Esta iniciativa oferece uma valiosa imersão de verão para estudantes do ensino médio, alinhando-se aos objetivos da ONU e reforçando o compromisso da fundação com a inclusão.

Beatriz Duqueviz explica que o programa da Fiocruz opera em três frentes estratégicas: o reconhecimento e a valorização das cientistas mulheres já estabelecidas; a condução de pesquisas focadas em gênero dentro do contexto científico; e, crucialmente, o estímulo ao interesse e à participação em carreiras científicas entre as meninas desde cedo. Segundo Duqueviz, as meninas são frequentemente desestimuladas desde a infância e, ao crescerem, especialmente as de menor renda, enfrentam a dupla jornada de estudos e trabalhos domésticos, que desviam sua atenção e energia de seus potenciais acadêmicos.

A imersão de verão é um ponto alto do programa. Neste ano, 150 alunas provenientes de diversas localidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foram selecionadas para uma experiência de três dias. Durante esse período, as estudantes têm a oportunidade ímpar de conhecer de perto os trabalhos realizados e interagir com pesquisadoras de 13 unidades distintas da Fundação. A programação é meticulosamente desenhada para apresentar a “ciência real”, desconstruindo os estereótipos que muitas vezes a tornam inacessível ou intimidante. “Você não precisa nascer um gênio para ser cientista. O que você precisa é ter curiosidade e disciplina para buscar respostas”, enfatiza Beatriz Duqueviz. O objetivo é que as participantes desenvolvam uma compreensão ampliada da ciência, incentivando-as a perseguir ativamente carreiras na área.

As atividades vão além dos laboratórios tradicionais, com seus microscópios e provetas. As estudantes visitam também espaços como o Laboratório de Conservação Preventiva, que se dedica à recuperação e preservação do vasto patrimônio histórico da Fiocruz, e a redação da Revista Cadernos de Saúde Pública, uma das publicações científicas de destaque da fundação. Luciana Dias de Lima, co-editora-chefe da revista, ressalta a importância dessas visitas para que as jovens compreendam a natureza multifacetada e, frequentemente, coletiva e multidisciplinar do trabalho científico. Na revista, três pesquisadoras atualmente compartilham a chefia da publicação, um exemplo de liderança feminina em ação.

Desafios e avanços para mulheres cientistas

A trajetória das mulheres na ciência é marcada por desafios históricos e estruturais. Por muito tempo, as áreas STEM foram dominadas por homens, resultando em uma sub-representação feminina que só começou a ser desafiada nas últimas décadas. A Fiocruz, embora centenária, só concebeu um programa dedicado a mulheres e meninas na ciência durante a gestão de Nísia Trindade, a primeira mulher a presidir a Fundação e, posteriormente, a primeira a assumir o Ministério da Saúde. Este fato sublinha a importância da ocupação de espaços de poder por mulheres, não apenas pela diversidade que trazem, mas pela sensibilidade e pela luta que impulsionam mudanças significativas.

As barreiras para as mulheres, especialmente no alcance de postos mais altos na carreira, persistem. “Principalmente porque nós, mulheres, enfrentamos a necessidade de atuar em outras áreas. A gente sempre tem que compartilhar o horário de trabalho, com várias outras atribuições, como cuidado com a família. Fora os estereótipos de qual é o ‘nosso lugar'”, observa Luciana Dias de Lima. Esses desafios, que incluem desde o desestímulo precoce na infância até as responsabilidades domésticas e os preconceitos sociais, tornam a jornada científica feminina ainda mais árdua.

Apesar desses obstáculos, iniciativas como a imersão da Fiocruz representam um avanço crucial. Ao apresentar modelos femininos de sucesso e ao desmistificar o universo científico, o programa capacita as jovens a visualizarem-se como cientistas, quebrando estereótipos e construindo um senso de pertencimento. A mensagem é clara: o lugar das meninas na ciência é onde elas quiserem. Através de experiências práticas, contato com pesquisadoras inspiradoras e uma visão ampliada do que a ciência realmente é, a Fiocruz está cultivando uma nova geração de mulheres inovadoras e líderes, prontas para contribuir significativamente para o conhecimento e o desenvolvimento do país.

Perguntas frequentes

O que é o Programa Mulheres e Meninas na Ciência da Fiocruz?
É uma iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz, lançada em 2020, para combater a desigualdade de gênero nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). O programa atua em três frentes: reconhecimento de cientistas mulheres, pesquisa sobre gênero e estímulo ao interesse de meninas pela ciência, incluindo uma imersão de verão.

Qual é o objetivo do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência?
Celebrado em 11 de fevereiro, este dia foi criado pela ONU em 2015 para chamar a atenção global para a persistente desigualdade de gênero nas áreas STEM e para promover a participação plena e igualitária de mulheres e meninas na ciência.

Como a imersão da Fiocruz ajuda as estudantes?
A imersão de verão oferece a estudantes do ensino médio a oportunidade de vivenciar a ciência na prática, conhecer diversas unidades e laboratórios da Fiocruz, interagir com pesquisadoras e desmistificar a carreira científica. O programa visa inspirar a curiosidade, promover a disciplina e mostrar que a ciência é acessível e diversa, ajudando as jovens a encontrar sua vocação.

Se você se interessou pelas carreiras científicas e busca mais informações sobre oportunidades de desenvolvimento e empoderamento feminino na ciência, explore os programas e recursos oferecidos por instituições de pesquisa e ensino. O futuro da ciência também depende de você!

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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