No último domingo (8), o bloco Besa Me Mucho transformou as históricas ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio, em um vibrante palco de celebração e resistência. Com um cortejo que habilmente mesclou ritmos latino-americanos contagiantes e os inconfundíveis batuques brasileiros, o evento não foi apenas uma festa pré-carnavalesca, mas uma poderosa declaração política de integração continental. A concentração, iniciada na escadaria da Rua Costa Barros, na esquina com a Ladeira do Livramento, atraiu uma multidão diversificada, composta por moradores locais, músicos imigrantes e foliões de todas as partes da cidade. Essa fusão cultural, liderada pelo Besa Me Mucho, reafirma a ocupação cultural das ruas como um gesto político essencial, promovendo o pertencimento e a visibilidade de diversas comunidades. A proposta de união e a energia da música ecoaram por toda a região, consolidando o evento como um marco de celebração da latinidade no coração carioca.
O ritmo da resistência: música e mensagem
O Besa Me Mucho surgiu da colaboração de coletivos que há anos atuam no território carioca, incluindo o Cortejinho RJ, que nasceu na própria Providência. Esta conexão profunda com a primeira favela do Brasil sublinha a relevância histórica e social do bloco. Os organizadores destacam que a “intensidade de fazer música latina nas vielas da Pequena África é resistência”, ressaltando a intrínseca relação entre a expressão musical, o local e o ato de resistir. Para o professor de sociologia e músico do bloco, André Videira de Figueiredo, o caráter político do Besa Me Mucho é inseparável de sua proposta musical. “É um bloco de música latino-americana, e isso inclui a música brasileira. Entendemos que fazemos parte desse grande aglomerado político que é a América Latina”, afirmou. A música, nesse contexto, transcende o entretenimento, tornando-se um veículo para uma mensagem maior de união e reconhecimento de uma identidade continental compartilhada.
Raízes na Pequena África
A escolha do Morro da Providência como palco para o cortejo do Besa Me Mucho não é aleatória; ela possui um simbolismo profundo. A região, conhecida por sua história rica e por ser um berço de movimentos culturais e sociais, oferece um pano de fundo potente para a mensagem de integração do bloco. A “Pequena África”, como é carinhosamente chamada a área central do Rio de Janeiro que engloba a Providência, tem sido historicamente um ponto de convergência de diversas culturas e lutas por liberdade. Nesse cenário, o Besa Me Mucho reforça a ocupação cultural das ruas como um gesto político vital, celebrando a diversidade e a resiliência. A sinergia entre os batuques brasileiros e os ritmos latino-americanos nas vielas da Providência não apenas encanta os foliões, mas também reitera a ideia de que a cultura popular é um espaço legítimo para a manifestação política e social, gerando consciência e pertencimento. A vivacidade do carnaval de rua na Providência, portanto, vai além da festa, estabelecendo um diálogo contínuo com a história e o futuro da comunidade.
Vozes da América Latina: imigração e pertencimento
A diversidade de vozes presentes no cortejo do Besa Me Mucho ilustra a profundidade de sua mensagem. Andrés Martin, um espanhol de 21 anos que veio de Madrid para vivenciar seu primeiro carnaval carioca, destacou o simbolismo de liberdade que o bloco representa. “Todo mundo é livre para fazer o que quiser. O carnaval e a cultura latino-americana representam isso”, declarou Martin. Para ele, o desfile também provocou reflexões sobre a política migratória global, em especial o tratamento dado aos imigrantes nos Estados Unidos, um tema que ressoa com a proposta de união e acolhimento do bloco. A bióloga venezuelana Salomé, integrante da banda do Besa Me Mucho e residente no Brasil há sete anos e meio, reforçou o caráter político inerente ao carnaval de rua. Ela descreveu o carnaval como “um movimento de resistência, de luta, de ocupar espaços de vida”, evidenciando como a festa popular pode ser uma plataforma para discussões sociais importantes.
Carnaval como plataforma política
Salomé enfatizou que a proposta do bloco dialoga diretamente com a ideia de pertencimento latino-americano. “O Brasil é a América Latina. Não entendo essa separação. As fronteiras são humanas, estão na nossa cabeça. Somos habitantes do planeta”, afirmou, desafiando a percepção de um Brasil isolado do restante do continente. Para ela, a rua é o palco central para essa disputa simbólica: “Uma coisa que amo no Rio é que a rua é das pessoas. É onde acontece a festa, o encontro. Temos que continuar ocupando esse espaço sempre”. O editor Felipe Eugênio Santos e Silva, frequentador assíduo do bloco, concordou, observando que o Besa Me Mucho ajuda a desconstruir a ideia de que o Brasil estaria à parte da América Latina. “Existe uma ideia muito ruim de que o Brasil paira acima da América Latina. Isso é um erro imenso. O bloco ajuda a conectar a gente com a cultura dos nossos hermanos, com as músicas e com os modos de existir”, avaliou. Essa resistência cultural, segundo ele, produz consciência política, transformando a folia em uma “antessala que nos politiza”. O caráter político do carnaval de rua, especialmente em blocos como o Besa Me Mucho, é, portanto, uma força motriz para o engajamento cívico e a reflexão social.
Um movimento que transcende fronteiras
O Besa Me Mucho representa mais do que um simples bloco de carnaval; ele é um manifesto cultural e político que celebra a riqueza da identidade latino-americana e a importância da integração continental. Ao ocupar as ladeiras do Morro da Providência com sua fusão de ritmos e mensagens, o bloco reforça a ideia de que a música e a festa podem ser poderosas ferramentas de transformação social e de construção de consciência coletiva. O empresário carioca Michael Pinheiro ressaltou o papel político do carnaval de rua, descrevendo-o como “o Brasil acontecendo de forma muito objetiva”, uma manifestação política “de ponta a ponta” que “mostra para o mundo quem é o nosso povo”. O sociólogo Rodrigo Freitas também enfatizou que desfiles como o do Besa Me Mucho na Providência são atos de resistência que conectam o Brasil às “ladeiras da América Latina”, atualizando a consciência de que “somos latinos” e precisamos “resistir ao imperialismo”. Assim, o Besa Me Mucho não apenas anima as ruas, mas também pavimenta caminhos para um entendimento mais profundo e unido do Brasil com seus vizinhos continentais, destacando a imigração como um tema central e reafirmando o carnaval como um espaço de diálogo e resistência.
Perguntas frequentes
1. Onde o bloco Besa Me Mucho desfilou no último domingo (8)?
O bloco Besa Me Mucho desfilou nas ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio de Janeiro, com concentração na escadaria da Rua Costa Barros, esquina com a Ladeira do Livramento.
2. Qual é a principal mensagem do Besa Me Mucho?
A principal mensagem do bloco é a integração continental latino-americana, a celebração da diversidade cultural e a ocupação das ruas como um gesto de resistência política e social, especialmente em relação à imigração e ao pertencimento.
3. Por que o Morro da Providência foi escolhido para o cortejo?
O Morro da Providência, por sua rica história e por ser parte da “Pequena África”, um berço cultural e de lutas sociais, oferece um simbolismo profundo e um pano de fundo ideal para a mensagem de união e resistência do Besa Me Mucho. A intensa relação do bloco com a primeira favela do Brasil também destaca essa escolha.
4. O bloco é composto apenas por brasileiros?
Não. O Besa Me Mucho é formado por uma maioria de imigrantes, além de moradores locais e foliões de diversas regiões, o que reforça sua mensagem de integração e diversidade latino-americana.
Para se manter atualizado sobre a vibrante cena cultural e os próximos eventos que celebram a integração latino-americana no Rio de Janeiro, fique atento às programações culturais e siga os movimentos que, como o Besa Me Mucho, promovem a união através da música e da resistência.
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