O bloco afro Malê Debalê, um dos mais emblemáticos da cultura baiana, continua a ser um farol de celebração da ancestralidade e da identidade negra no bairro de Itapuã, em Salvador. Com uma trajetória marcada pela inovação e pelo compromisso social, a agremiação reafirma seu papel fundamental na promoção da cultura negra, na formação artística de jovens talentos e na valorização das raízes históricas que moldaram não apenas o bairro, mas toda a capital baiana. Desde sua fundação, o Malê Debalê transcende a folia carnavalesca, consolidando-se como uma instituição que luta por representatividade e empoderamento. Sua atuação é um testemunho vivo da riqueza cultural afro-brasileira e um convite à reflexão sobre a importância da educação e do reconhecimento das heranças africanas.
A trajetória de um balé afro global
Do surgimento em Itapuã ao reconhecimento internacional
O Malê Debalê, bloco afro que exalta a ancestralidade do bairro de Itapuã, em Salvador, possui uma história rica e impactante, que se inicia no final da década de 1970. De acordo com o presidente da agremiação, Cláudio de Araújo, o movimento nasceu da inquietação de jovens que desejavam uma representação mais digna para Itapuã. “O balé, o Malê Debalê, nasce da década de 79 para 80, aonde os jovens, né, que pensaram essa instituição tinham nada mais, nada menos como um desejo de fazer com que Itapuã fosse melhor representada, né? Uma questão asfáltica, de educação, urbanismo, né?”, detalha Araújo. A visão era ampla, buscando melhorias significativas para a comunidade, extrapolando as fronteiras da mera celebração cultural.
A força e o pioneirismo do bloco foram reconhecidos logo em seu primeiro ano de participação no Carnaval, quando foi consagrado campeão. Este sucesso inicial pavimentou o caminho para uma percepção estratégica da diretoria: era preciso ir “para além do Carnaval”. Foi a partir dessa visão que se deu o investimento em alas de dança, que viriam a se tornar um diferencial marcante do Malê Debalê. O ápice desse reconhecimento internacional veio em 1997, quando o bloco recebeu o prestigioso título do New York Times como o “maior balé afro do mundo”. Cláudio de Araújo descreve o momento como “algo assim surreal”, sublinhando o impacto global que a agremiação alcançou, levando o nome de Itapuã e a cultura negra baiana para um patamar de reconhecimento sem precedentes. Este feito não apenas elevou o perfil do bloco, mas também solidificou seu compromisso com a excelência artística e a representação cultural.
Fé e realeza espiritual no Carnaval 2026
Malê na Corte de Oxalá: uma celebração da ancestralidade
Para o Carnaval de 2026, o Malê Debalê promete um desfile grandioso e profundamente simbólico, sob o tema “Malê na Corte de Oxalá”. Esta escolha não é aleatória, mas uma continuidade de um processo narrativo iniciado em 2025, quando o bloco teve a ousadia de levar para a avenida a figura de Exú, desafiando estigmas e promovendo o entendimento de uma divindade muitas vezes incompreendida. “Nós, na verdade, estamos dando continuidade a um processo que nós começamos em 2025. Em 2025, nós tivemos a ousadia de vislumbrar, de propor à sociedade civil, né, a Salvador, Bahia e Brasil, mundo, um tema chamado, né? Nós levamos para a avenida Exú”, explica Cláudio de Araújo.
A transição para Oxalá, divindade associada à criação, à paz e à sabedoria, representa uma celebração da fé, da ancestralidade e da realeza espiritual do povo negro. A “Corte de Oxalá” não se limita a esta única divindade, mas se desdobra para envolver a rica cosmogonia dos Orixás. “Quando a gente fala na Corte de Oxalá, é claro que todos os orixás estão envolvidos, mas a gente, é claro, não tem essa expertise no sentido de ocupar tempo, de mensurar a quantidade de orixás para poder, a exemplo, colocar num tecido, nas nossas peças do Carnaval”, comenta Araújo. Para materializar essa complexidade e reverência, o desfile contará com 23 alas de dança. Cada uma dessas alas terá a responsabilidade de representar um Orixá específico como subtema, transformando a avenida em um verdadeiro cortejo de divindades e narrativas ancestrais. Este formato permite uma exploração detalhada e artística da riqueza da cultura afro-brasileira, oferecendo ao público uma experiência imersiva e educativa sobre a religiosidade e a mitologia africana.
Educação e identidade: o legado além da folia
Promovendo o empoderamento desde a infância
Para além dos palcos e avenidas carnavalescas, o Malê Debalê mantém um compromisso inabalável com a educação e o fortalecimento da identidade negra, especialmente entre as novas gerações. A agremiação é responsável por iniciativas como o concurso Negra e Negro Maê Adulto e o festival de dança Malezinho. Este último, que antes era intitulado “escolha da Negra e Negro Malezinho”, passou por uma ressignificação. “Até dois anos atrás, nós intitulávamos esse processo de seleção como escolha da Negra e Negro Malezinho. Mas a gente sabe que pais e mães, eles querem sempre que seus filhos cheguem no pódio em primeiro lugar. Existia um certo conflito, sabe?”, relata Cláudio de Araújo. A mudança para um formato de festival visa mitigar essa competitividade, priorizando a celebração e o reconhecimento.
O objetivo central dessas atividades é valorizar a identidade negra a partir do reconhecimento de personalidades negras que marcaram a história. O presidente da agremiação enfatiza a importância de enaltecer “a memória, sobretudo, daqueles jovens negros, reis e rainhas que vieram em porões de navios e que a gente, enquanto diretoria do Malê Debalê, tenta devolver isso de uma forma macro”. A filosofia do bloco é clara e contundente: “Aqui nós temos a prerrogativa de que só através da educação iremos mudar o cidadão”. Essa crença se reflete no impacto que o Malê Debalê exerce sobre crianças e adolescentes que participam de seus projetos.
Dandara Lima, de 9 anos, eleita a Negra Malezinho de 2026, expressa o profundo significado de sua participação. “Ser Negra Malezinho, para mim, é motivo de esperança, perseverança e também eu acredito que o maior balé afro do mundo, o Malê, ele ajuda as crianças a seguirem pelo caminho certo e não seguirem pelo caminho errado. Eles ensinam a respeitar, a cuidar e também empoderam as crianças negras da sua comunidade”, afirma a jovem. Sua fala ressalta o papel do bloco na formação de valores e na promoção da autoestima.
Da mesma forma, Iago Carvalho, de 12 anos, morador da Praia de Pitanga e o novo Rei Malezinho, compartilha seu entusiasmo. “Eu me sinto feliz por poder representar crianças que querem concursar e querem chegar ao mesmo lugar que eu estou hoje. Para mim, ser Negro Malezinho é poder representar outras crianças e exaltar minha ancestralidade”, comenta Iago. Os testemunhos de Dandara e Iago ilustram o sucesso do Malê Debalê em cultivar não apenas artistas, mas cidadãos conscientes de sua história e de seu potencial, reafirmando que o legado do bloco vai muito além dos desfiles, construindo um futuro de empoderamento e reconhecimento para a comunidade negra.
Conclusão
O Malê Debalê solidifica seu papel como uma força vital na cultura e na sociedade soteropolitana. Desde suas origens em Itapuã, impulsionado pelo desejo de melhor representação e desenvolvimento comunitário, até o reconhecimento global como o “maior balé afro do mundo” pelo New York Times, o bloco demonstra uma capacidade notável de inovar e permanecer relevante. Suas iniciativas, que vão desde a grandiosidade temática do Carnaval 2026, “Malê na Corte de Oxalá”, até os programas educativos como o festival Malezinho, são um testemunho do compromisso inabalável com a valorização da ancestralidade, a formação artística e o empoderamento da juventude negra. O Malê Debalê não é apenas um bloco afro; é uma instituição que, através da arte e da educação, molda identidades, celebra a riqueza da cultura africana e pavimenta o caminho para um futuro de maior reconhecimento e equidade para a comunidade negra em Salvador e além.
FAQ
O que é o Malê Debalê?
O Malê Debalê é um renomado bloco afro de Salvador, Bahia, fundado no final da década de 1970 no bairro de Itapuã. É conhecido por exaltar a ancestralidade e a cultura negra, promovendo a formação artística e a valorização das identidades afro-brasileiras. Em 1997, foi reconhecido pelo New York Times como o “maior balé afro do mundo”.
Qual o tema do Malê Debalê para o Carnaval 2026?
Para o Carnaval de 2026, o Malê Debalê levará para a avenida o tema “Malê na Corte de Oxalá”. Este tema é uma continuidade do desfile de 2025 (que celebrou Exú) e visa exaltar a fé, a ancestralidade e a realeza espiritual do povo negro, com 23 alas de dança, cada uma representando um Orixá como subtema.
Como o Malê Debalê contribui para a educação e empoderamento?
Além de sua atuação no Carnaval, o Malê Debalê investe significativamente em educação e empoderamento. A agremiação promove o concurso Negra e Negro Maê Adulto e o festival de dança Malezinho, que busca valorizar a identidade negra, reconhecer personalidades históricas e inspirar jovens. O bloco enfatiza que “só através da educação iremos mudar o cidadão”, oferecendo um caminho de esperança, perseverança e respeito para crianças e adolescentes.
Descubra mais sobre a rica história, os vibrantes projetos e o impacto transformador do Malê Debalê visitando seu site oficial e junte-se a nós na celebração e apoio à cultura negra em Salvador.
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