A cada 2 de fevereiro, os mares brasileiros se vestem de festa para saudar Iemanjá, a reverenciada “Rainha das Águas, Mares e Oceanos”, uma orixá central nas religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda. No Rio de Janeiro, a celebração do Dia de Iemanjá transcende a fé individual, transformando-se em um vibrante espetáculo cultural que reúne milhares de fiéis e admiradores. Com cortejos marcantes, rituais ancestrais e uma rica programação musical, a cidade reafirma sua profunda conexão com as raízes africanas e a espiritualidade que emana do oceano. A data é um momento de profunda devoção e manifestação de uma herança cultural inestimável para a população carioca.
Celebrações na Zona Portuária: O berço da ancestralidade
O Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro foi inaugurado com eventos emblemáticos na Zona Portuária, um local de profunda significância histórica e cultural conhecido como Pequena África. Esta região, que serviu como porto de entrada para milhões de africanos escravizados e se tornou um caldeirão de culturas e resistências, foi o ponto de partida para as festividades. As celebrações reforçam a importância da ancestralidade negra fluminense e a contínua luta pela permanência e reconhecimento nesses espaços.
Filhos de Gandhi e a Pequena África
A programação matinal teve início às 7h, com a Associação Recreativa Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro protagonizando a comemoração dos 50 anos do “Presente para Iemanjá”. Este evento tradicional é um marco cultural que simboliza a força e a resiliência da herança africana na cidade. Os rituais de saudações aos orixás, acompanhados de um café da manhã aberto ao público, criaram um ambiente de comunhão e reverência, convidando a todos para participar dessa manifestação de fé e cultura. A energia na Pequena África era palpável, com a comunidade se unindo em torno de suas tradições mais sagradas. O evento destacou a importância de preservar e valorizar os locais que testemunharam a formação da identidade afro-brasileira, servindo como um lembrete vivo da contribuição negra para a construção do Brasil.
O cortejo para a Rainha do Mar
Após os rituais iniciais, um solene cortejo se formou na Pequena África e seguiu em direção à Praça Mauá. Milhares de fiéis, muitos deles vestidos de branco em sinal de paz e devoção, acompanharam a procissão. Na Praça Mauá, o ponto alto do cortejo foi a saída de uma embarcação que levou as oferendas ao mar, entregando simbolicamente os presentes à Rainha das Águas. A cena, carregada de emoção e simbolismo, marcou um dos momentos mais aguardados do dia. Além da entrega das oferendas, o público pôde desfrutar de uma programação cultural diversificada que se estendeu até o fim do dia, com apresentações de samba e outras atividades que celebram a cultura afro-brasileira. A convergência de fé, música e dança transformou a Zona Portuária em um palco vibrante de expressão cultural e espiritualidade.
A tradição que moldou o Rio: História e reconhecimento
A celebração do Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro não é apenas um evento anual, mas o culminar de uma rica história de devoção e resistência que se entrelaça com a própria identidade da cidade. A tradição, que começou como um ato de fé e esperança, evoluiu para se tornar uma manifestação cultural de magnitude, influenciando até mesmo outras celebrações cariocas.
As origens da festa de Iemanjá
A história das celebrações em homenagem a Iemanjá remonta a 1950, quando Tatá Tancredo, um dos mais influentes pais de santo umbandistas da história do Rio, organizou o evento “Flores para Iemanjá”. Naquela ocasião, Tatá Tancredo reuniu um grupo de religiosos vestidos de branco para entregar suas oferendas ao mar antes da meia-noite. Este ato de fé e devoção ganhou, ao longo dos anos, mais adeptos, transformando-se em uma prática popular que transcendeu as fronteiras religiosas e se enraizou na cultura carioca. Curiosamente, o costume de vestir branco e ir à praia para celebrar a virada do ano, que hoje é sinônimo do Réveillon em Copacabana, teve suas origens nessas primeiras celebrações de Iemanjá, evidenciando a profunda influência das religiões de matriz africana na cultura popular brasileira.
Iemanjá como patrimônio cultural imaterial
Após anos de luta e persistência dos povos de terreiro, a importância dessa celebração foi finalmente reconhecida pela prefeitura do Rio de Janeiro. Em janeiro do ano corrente, o Dia de Iemanjá foi oficialmente instituído como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade, um marco significativo que valida a relevância histórica, cultural e espiritual das manifestações afro-brasileiras. Este reconhecimento não apenas valoriza a tradição, mas também assegura sua preservação e continuidade para as futuras gerações. No ano passado, a festa atraiu cerca de 25 mil pessoas, e a expectativa para este ano é ainda maior, com a previsão de que aproximadamente 30 mil pessoas participem da saudação à “Mãe cujos filhos são peixes”, demonstrando a crescente adesão e o carinho pela orixá. O título de patrimônio cultural imaterial solidifica Iemanjá como um pilar da identidade carioca, um símbolo de fé, resistência e união.
Festa no Arpoador: Ritmos, cultura e sustentabilidade
As comemorações do Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro se estenderam além da Zona Portuária, alcançando também a deslumbrante Praia do Arpoador, na Zona Sul da cidade. Este local icônico foi palco da quinta edição da Festa de Iemanjá do Arpoador, um evento que combinou fé, arte e um forte compromisso com a sustentabilidade ambiental. A celebração demonstrou a capacidade da cidade de honrar suas tradições de forma consciente e ecologicamente responsável.
A quinta edição da festa na Zona Sul
No Largo Millôr, a Festa de Iemanjá do Arpoador ofereceu rodas de ritmos e danças candomblecistas, com destaque para a performance do grupo Orin Dudu, que trouxe a autenticidade e a energia dos tambores e cantos sagrados. A concentração para o cortejo sagrado teve início a partir das 15h, com a saída programada para as 16h, nas proximidades da estátua de Tom Jobim. Além das giras e das tradicionais entregas de oferendas, o público teve acesso a uma vasta feira gastronômica, que celebrava a culinária afro-brasileira, e a 21 atrações artísticas e religiosas. Com a participação de 300 artistas, incluindo grupos de jongo e samba, o evento no Arpoador se consolidou como um polo cultural vibrante, unindo fé, arte e a beleza natural do Rio de Janeiro.
Oferendas conscientes e mutirão de limpeza
Um aspecto crucial das celebrações no Arpoador foi o forte enfoque na sustentabilidade. Em um apelo à consciência ambiental, foi veementemente recomendado ao público que todas as oferendas fossem biodegradáveis, com a proibição estrita de materiais como plástico, vidro ou madeira. Nas águas, somente flores e frutas foram permitidas, garantindo que o gesto de devoção não causasse danos ao ecossistema marinho. O compromisso com a preservação ambiental não terminou com a entrega das oferendas; ao término da programação, o público e a equipe da Pedra do Arpoador Conservação se uniram em um mutirão de limpeza. Essa iniciativa conjunta visou recolher quaisquer resíduos das praias e pedras, assegurando que o ambiente natural fosse respeitado e mantido intacto, reforçando a mensagem de que a reverência à Rainha do Mar deve vir acompanhada da proteção de seu reino.
Um legado de fé, cultura e resistência
O Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro é muito mais do que uma simples data no calendário; é a expressão viva de uma herança cultural e espiritual profundamente enraizada na história da cidade. As celebrações, que se estendem da Zona Portuária ao Arpoador, são um testemunho da resiliência das religiões de matriz africana e da riqueza da cultura afro-brasileira. A festividade serve como um poderoso elo entre o passado e o presente, conectando gerações e reforçando a identidade coletiva de um povo que construiu e continua a construir o Brasil. É um momento de união, de fé inabalável e de celebração da vida, do mar e da ancestralidade que pulsa forte em cada canto do Rio de Janeiro.
Perguntas frequentes
O que é o Dia de Iemanjá e quando é celebrado?
O Dia de Iemanjá é uma celebração religiosa dedicada à orixá Iemanjá, conhecida como a “Rainha das Águas, Mares e Oceanos”, cultuada por religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda. É celebrado anualmente em 2 de fevereiro.
Quais são os principais locais de celebração no Rio de Janeiro?
No Rio de Janeiro, as principais celebrações ocorrem na Zona Portuária, com eventos na região da Pequena África e cortejos até a Praça Mauá, e também na Praia do Arpoador, na Zona Sul, com sua própria programação cultural e religiosa.
Quais as recomendações para as oferendas?
Para garantir a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente marinho, é fortemente recomendado que todas as oferendas sejam biodegradáveis. Materiais como plástico, vidro ou madeira são proibidos. Nas águas, apenas flores e frutas são permitidas. Mutirões de limpeza são realizados após as festividades.
Qual a importância do reconhecimento de Iemanjá como Patrimônio Cultural Imaterial?
O reconhecimento do Dia de Iemanjá como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro é um marco significativo que valida a relevância histórica, cultural e espiritual das manifestações afro-brasileiras, garantindo a preservação e valorização dessa tradição para as futuras gerações e solidificando seu papel na identidade carioca.
Para vivenciar a riqueza dessa cultura e celebrar a fé, participe das próximas festividades e mergulhe na ancestralidade que Iemanjá inspira no Rio de Janeiro.
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