© Loucura Suburbana/ Pâmela Perez

Saúde mental no carnaval do Rio: Blocos desafiam estigmas

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O carnaval do Rio de Janeiro, reconhecido globalmente por sua energia, beleza e criatividade, transcende a mera festividade para se tornar um potente espaço de inclusão social. Em meio à efervescência das ruas, os blocos de saúde mental emergem como protagonistas, transformando a maior festa popular do país em uma plataforma vibrante de conscientização e combate a estigmas. Estas agremiações, que prometem agitar diversas regiões da cidade, reúnem usuários da rede de atenção psicossocial, seus familiares, profissionais de saúde e a comunidade, reafirmando o direito à cultura, à alegria e à participação cidadã. Ao ocuparem as ruas, eles quebram barreiras e reforçam a importância de uma política de cuidado em liberdade, promovendo diálogo e respeito às diferenças em um dos maiores espetáculos do mundo.

O carnaval como plataforma de inclusão e cuidado
A presença dos blocos de saúde mental no carnaval carioca vai além da celebração, constituindo um pilar fundamental para a política de atenção psicossocial. Hugo Fernandes, superintendente de Saúde Mental, enfatiza a relevância dessas iniciativas, que asseguram às pessoas em sofrimento psíquico o pleno direito à cultura e à alegria. Tais agremiações representam muito mais do que simples folia; são espaços vitais de expressão, pertencimento e cidadania, essenciais para a construção de um modelo de cuidado baseado na liberdade e no respeito individual. A interação entre usuários, familiares e a comunidade durante o carnaval fomenta um ambiente de aceitação e solidariedade, desmistificando preconceitos e promovendo a reintegração social.

Expressão, pertencimento e cidadania
A atuação desses blocos se estende ao longo do ano, oferecendo oficinas contínuas de música, fantasias, artesanato e percussão. Essas atividades não só estimulam a criatividade e a expressão artística dos usuários da rede psicossocial, mas também criam um ambiente de convivência e apoio mútuo. Por meio da arte, os participantes desenvolvem habilidades, fortalecem laços e encontram novas formas de se relacionar com o mundo. Este processo terapêutico e social prepara os indivíduos para a participação ativa no carnaval, onde a arte se transforma em um megafone para mensagens de inclusão, respeito às diferenças e a importância do cuidado coletivo, atingindo um público amplo e diversificado.

Destaque dos blocos de saúde mental no carnaval de 2026
O carnaval de 2026 promete ser um marco para a visibilidade da saúde mental, com diversos blocos prontos para tomar as ruas do Rio de Janeiro. Cada agremiação traz consigo uma história única, um enredo significativo e o compromisso de promover a inclusão e o combate ao preconceito. De Bangu à Urca, passando por Jacarepaguá e Engenho de Dentro, a folia desses blocos celebra a vida, a arte e a luta por uma sociedade mais justa e acolhedora para todos. A diversidade de suas propostas e a paixão de seus integrantes garantem uma experiência carnavalesca enriquecedora e transformadora, tanto para os participantes quanto para o público que acompanha os desfiles.

Zona mental: a voz da zona oeste
Como um dos mais recentes blocos de saúde mental, o Zona Mental é uma manifestação da união entre usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial da Zona Oeste do Rio. Fundado em 2015, com a missão de promover a reintegração social através da música, da arte e do espírito carnavalesco, o bloco realizou seu primeiro desfile em 2017. Para 2026, a concentração está marcada para 6 de fevereiro, às 16h, na Praça Guilherme da Silveira, no Ponto Chic, prometendo arrastar uma multidão pelas ruas de Bangu. Débora Rezende, musicoterapeuta do Centro de Atenção Psicossocial Neusa Santos Souza (Caps Neusa Santos) e presidente do bloco ao lado da artista Rogéria Barbosa, também usuária do CAPS, destaca a importância da agremiação em quebrar preconceitos. O bloco, que representa a periferia da Zona Oeste, reúne cerca de 14 a 15 serviços de saúde, contando com a participação de artistas do samba de escolas como Unidos de Bangu e Mocidade Independente de Padre Miguel. Neste carnaval, o Zona Mental homenageará os nordestinos da Zona Oeste e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal, morador de Bangu, falecido no ano anterior, com um samba-enredo de autoria do usuário do CAPS Neusa Santos, Marco Antonio Amaral. A proposta é clara: “todo mundo junto e misturado”.

Tá pirando, pirado, pirou!: celebrando a reforma psiquiátrica
Em 2026, o bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! comemorará seus 21 anos e os 25 anos da Lei 10.216/2001, a Lei Antimanicomial ou Lei da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Seu desfile, agendado para 8 de fevereiro, às 15h, terá concentração na Avenida Pasteur, na Urca, próximo à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). A agremiação presta uma homenagem especial ao médico psiquiatra italiano Franco Basaglia, uma figura central na reforma psiquiátrica brasileira. O psicanalista Alexandre Ribeiro, fundador do bloco, considera Basaglia a maior inspiração para o movimento antimanicomial no país. Em 1979, Basaglia visitou o Brasil e testemunhou os horrores do Hospital-Colônia de Barbacena (MG), onde mais de 60 mil pessoas morreram devido a maus-tratos, descrevendo-o como um “campo de concentração nazista” e seus profissionais como “carcereiros”. Sua influência, juntamente com a da psiquiatria democrática italiana, inspirou trabalhadores da saúde mental a redigirem o Manifesto de Bauru em 1987, instituindo o 18 de Maio como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial e o lema “Por uma sociedade sem manicômios”. Essa mobilização culminou na aprovação da Lei 10.216 em 2001. O bloco desfilará acompanhado pela bateria da Portela e por blocos convidados como Céu da Terra e Vem Cá Minha Flor, reforçando a luta por direitos humanos e cuidado em liberdade.

Império colonial: homenagem a Arthur Bispo do Rosário
O Império Colonial trará em seu enredo uma emocionante homenagem a Arthur Bispo do Rosário, o renomado artista plástico diagnosticado com esquizofrenia. Marinheiro e boxeador, Bispo do Rosário passou quase 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira, onde sua genialidade artística floresceu. Fundado em 2009, o bloco nasceu de ações de cultura, lazer e territorialidade do próprio Museu Bispo do Rosário, localizado no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (IMASJM). A partir de 2012, o Centro de Convivência Pedra Branca (Cecco Pedra Branca) tornou-se sua sede. Para o carnaval de 2026, Luciana Cerqueira, diretora do IMASJM, destaca que o bloco apresentará alas pela primeira vez, simbolizando seu amadurecimento. O enredo é de autoria de Alex de Repix, usuário do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Jovelina Pérola Negra. O desfile ocorrerá em 10 de fevereiro, com concentração às 14h30 na Praça Nossa Senhora de Fátima, em Jacarepaguá, Zona Sudoeste. Composto por cerca de 20 pessoas, incluindo bateria, profissionais de saúde mental e usuários, o Império Colonial, que no ano anterior realizou um baile para 200 pessoas, espera dobrar esse número no desfile de rua deste ano, reunindo moradores locais, usuários da rede e trabalhadores de serviços do entorno.

Loucura suburbana: baluartes, território e a força da comunidade
O samba “Para o povo poder cantar”, selecionado entre 25 concorrentes, será o hino do Loucura Suburbana no desfile de 2026, marcado para 12 de fevereiro. A expectativa é que o público ultrapasse as 3 mil pessoas novamente. Fundado em 2001, o Loucura Suburbana, o mais antigo do grupo, celebra 26 anos de atividades e é responsável por revitalizar o carnaval de rua no Engenho de Dentro, na Zona Norte. Ariadne Mendes, psicóloga e coordenadora-geral da agremiação, revela que o enredo deste ano, “Baluartes, Território e Loucura”, é uma síntese de diversas ideias trazidas pelos participantes. “Baluartes” homenageia músicos que fizeram parte do bloco e a tradição de preservar a memória do carnaval local. “Território” refere-se às raízes do bloco e ao trabalho comunitário, simbolizando a reconstrução e o enraizamento. Por fim, “Loucura” exalta a importância do bloco não apenas para o bairro, mas para a vida de seus integrantes, sendo um “lugar celebrado, de alegria e encontro”. Para garantir a participação de todos, o barracão do bloco já está aberto para a reserva de fantasias gratuitas, que podem ser pegas, usadas e devolvidas. O bloco ainda oferece maquiagem carnavalesca gratuita no dia do desfile, reforçando seu compromisso com a inclusão e a celebração acessível.

Impacto e legado dos blocos de saúde mental
A atuação dos blocos de saúde mental no carnaval do Rio de Janeiro representa um movimento social e cultural de profunda relevância. Eles não apenas oferecem um espaço de lazer e expressão artística para usuários da rede de atenção psicossocial, mas também desempenham um papel crucial na desconstrução de preconceitos e na promoção da inclusão. Ao ocupar as ruas e interagir com a comunidade, esses blocos transformam a percepção pública sobre a saúde mental, mostrando que a alegria e a participação cidadã são direitos de todos. O legado dessas agremiações reside na capacidade de integrar o cuidado em saúde mental à vida comunitária, utilizando o carnaval como uma poderosa ferramenta de transformação social e defesa dos direitos humanos, construindo uma sociedade mais empática e livre de estigmas.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que são os blocos de saúde mental no carnaval do Rio?
São agremiações carnavalescas formadas por usuários, familiares e profissionais da rede de atenção psicossocial, que desfilam no carnaval do Rio de Janeiro para promover a inclusão, combater estigmas e celebrar o direito à cultura e à alegria de pessoas em sofrimento psíquico.

Quais são os principais objetivos desses blocos?
Os principais objetivos incluem a promoção da reintegração social, a quebra de preconceitos sobre a saúde mental, o estímulo à expressão artística e cultural, e a garantia do direito à participação cidadã para pessoas em sofrimento psíquico. Eles também funcionam como espaços de convivência e cuidado contínuo.

Qual é o impacto social dos blocos de saúde mental?
O impacto social é significativo, pois eles transformam o carnaval em uma plataforma de conscientização, humanizando a questão da saúde mental e promovendo um diálogo aberto com a sociedade. Ao desfilarem, reforçam a mensagem de que a inclusão e o respeito às diferenças são fundamentais para uma sociedade mais justa e acolhedora, além de fortalecerem a luta antimanicomial.

Não perca a chance de vivenciar essa celebração da inclusão e da arte. Junte-se aos blocos de saúde mental no carnaval do Rio e seja parte dessa transformação!

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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