Desde sua fundação em 2001, o Bloco da Capoeira tem sido um pilar na valorização e difusão das tradições de matriz africana no Carnaval de Salvador. Embora idealizado no início do milênio, a entidade só conseguiu estrear no Circuito Osmar em 2008, após um persistente trabalho de seus idealizadores. Parte integrante dos projetos da Associação Sociocultural e de Capoeira, Bloco Carnavalesco Afro-Mangangá, sediada no bairro do Pau Miúdo, o bloco transcende a simples folia. Ele se dedica a narrar a profundidade cultural da capoeira, revelando suas conexões intrínsecas com outras manifestações artísticas afro-brasileiras, especialmente o samba, e a luta pela representatividade e reconhecimento dessas heranças ancestrais.
A gênese do Bloco da Capoeira: da ideia à avenida
A trajetória do Bloco da Capoeira é um testemunho da persistência e paixão por suas raízes culturais. Tonho Matéria, cantor, compositor e gestor da Associação Sociocultural e de Capoeira, Bloco Carnavalesco Afro-Mangangá, foi o grande impulsionador por trás da iniciativa. Ele conta que a ideia de levar a capoeira para a avenida, em formato de bloco carnavalesco, surgiu de um diálogo com a notável Negra Jhô ainda no início dos anos 2000. No entanto, a concretização desse sonho enfrentou desafios significativos. Até 2007, a burocracia e a complexidade do cenário carnavalesco impediram que o bloco fizesse sua estreia no cobiçado circuito.
Uma trajetória de resistência e celebração cultural
A virada ocorreu em 2008, quando Tonho Matéria propôs à Prefeitura e ao Conselho Municipal do Carnaval (ComCar) que o tema oficial daquele ano fosse a capoeira. A ideia foi acolhida e, com a capoeira como tema central, o bloco obteve o reconhecimento como um “projeto especial”, ganhando o corpo e a estrutura necessários para desfilar pela primeira vez. Desde então, o Bloco da Capoeira acumula 18 anos de desfiles ininterruptos, uma jornada que vai além da festa. É uma narrativa contínua, um palco para contar histórias, explorar temáticas relevantes e educar a sociedade sobre a profundidade da capoeira. O objetivo primordial é desmistificar a percepção de que a capoeira se limita à roda, revelando-a como um complexo sistema de arte, luta, dança, música e filosofia, enraizado na resistência e na memória afro-brasileira.
Carnaval 2026: “Roda de Capoeira: Campo de Mandinga, Ancestralidade e Resistência na Arte de Sambar”
Para o Carnaval de Salvador de 2026, o Bloco da Capoeira se prepara para brilhar novamente, desta vez sob o enredo “Roda de Capoeira: Campo de Mandinga, Ancestralidade e Resistência na Arte de Sambar”. O tema é uma poderosa declaração de valorização da manifestação cultural do povo preto, em perfeita sintonia com a temática geral do carnaval daquele ano, que celebra o samba. A escolha de focar na “arte de sambar” não é aleatória; ela ressalta a intrínseca ligação entre a capoeira e diversas formas de expressão musical e corporal afro-brasileiras. Tonho Matéria explica que a capoeira, com seus praticantes e rodas, foi um motor vital para o movimento de manifestações como o samba de roda, o maculelê e a puxada de rede, promovendo eventos e encontros que solidificaram essas tradições.
Afrofuturismo e as alas temáticas: desvendando a capoeira
A conexão histórica se aprofunda com a menção à capoeira regional, criada por Mestre Bimba. Ele, ao desenvolver seu estilo, extraiu elementos do “batuque”, uma luta-dança ancestral praticada por seu pai e outros mestres antigos. Este legado de movimento e ritmo é a base da “arte de sambar” que o bloco propõe. O desfile de 2026, concebido sob a inspiração do afrofuturismo, promete ser uma jornada visual e narrativa. As alas do bloco serão as condutoras dessa história, cada uma dedicada a contar a trajetória, a importância e o vasto legado das rodas de capoeira em diferentes cenários da cidade e da cultura.
Entre os sub-temas que compõem as alas, destacam-se a “Roda da Negaça”, que explora as formas simbólicas do corpo e as negações expressas através da corporidade, um elemento fundamental da capoeira. A “Roda dos Malungos” celebra os amigos da capoeira, os companheiros de jornada, sendo dividida em diferentes alas para representar essa irmandade. Uma ala de grande relevância histórica será a “Ala dos Maniques”, que mergulha nas simbologias dos povos mandingas que influenciaram a Bahia e que foram protagonistas da Revolta dos Malês, uma das mais importantes insurreições de escravizados no Brasil. Suas vestimentas, conhecidas como abadás na época, são hoje um símbolo contemporâneo da capoeira, estabelecendo um elo direto com o passado de resistência. Haverá também a “Ala da Resistência” e a “Ala da Ancestralidade”, esta última dedicada a trazer os orixás que possuem conexão com a capoeira, explorando as simbologias e cores que permeiam esses espaços sagrados. O Bloco da Capoeira, assim, convida o público a uma leitura mais atenta e profunda, onde cada cor e cada movimento carregam significados que, para aqueles com “clarividência cultural”, revelarão a riqueza de uma história viva e pulsante.
O legado e o futuro do Bloco da Capoeira na cultura baiana
O Bloco da Capoeira, com sua história de superação e dedicação, firmou-se como um embaixador cultural de Salvador. Através de seus desfiles temáticos, a entidade não apenas encanta e diverte, mas educa e provoca reflexão sobre a riqueza e a complexidade das tradições afro-brasileiras. Ao celebrar a capoeira e suas conexões com o samba, o bloco reforça a importância da ancestralidade e da resistência como pilares da identidade nacional. Mais do que um evento carnavalesco, o Bloco da Capoeira é um movimento contínuo de preservação, valorização e projeção de um legado cultural que pulsa na alma do Brasil.
Perguntas frequentes sobre o Bloco da Capoeira
Qual a principal motivação do Bloco da Capoeira?
A principal motivação do Bloco da Capoeira é a valorização e divulgação das tradições e elementos de matriz africana, especialmente a capoeira e suas conexões com outras manifestações culturais como o samba.
Quando o Bloco da Capoeira foi fundado e quando desfilou pela primeira vez?
O Bloco da Capoeira foi fundado em 2001, mas conseguiu desfilar pela primeira vez no Circuito Osmar do Carnaval de Salvador apenas em 2008, após a capoeira ser adotada como tema do carnaval naquele ano.
Qual o tema do Bloco da Capoeira para o Carnaval de Salvador de 2026?
Para o Carnaval de 2026, o Bloco da Capoeira levará para a avenida o tema “Roda de Capoeira: Campo de Mandinga, Ancestralidade e Resistência na Arte de Sambar”.
Como o Bloco da Capoeira conecta a capoeira com o samba?
O bloco destaca que a capoeira e seus praticantes tiveram um papel fundamental na movimentação e difusão do samba de roda, maculelê e puxada de rede. Além disso, a capoeira regional de Mestre Bimba incorporou elementos do “batuque”, uma luta-dança que é considerada precursora de ritmos como o samba.
Para vivenciar de perto a energia contagiante e a profunda história que o Bloco da Capoeira desfila, planeje sua participação no próximo Carnaval de Salvador e mergulhe na riqueza vibrante da cultura afro-brasileira.
Jornal Imprensa Regional O Jornal Imprensa Regional é uma publicação dedicada a fornecer notícias e informações relevantes para a nossa comunidade local. Com um compromisso firme com o jornalismo ético e de qualidade, cobrimos uma ampla gama de tópicos, incluindo:
