© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Pós-graduação: censo detalha cenário e guia políticas públicas no Brasil

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) conduziu um levantamento estatístico inédito sobre os programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil, com o período de coleta de dados se estendendo até 26 de fevereiro para as informações referentes a 2025. Este Censo da Pós-Graduação, o primeiro do tipo, representa um marco fundamental para o sistema educacional do país. Seu principal objetivo é fornecer um panorama abrangente e detalhado da realidade da pós-graduação, englobando mestrado e doutorado, para subsidiar a formulação de políticas públicas mais eficazes e alinhadas às necessidades atuais. A iniciativa visa não apenas quantificar, mas também qualificar e humanizar a compreensão sobre quem são e o que fazem os atores envolvidos neste nível de ensino.

Um retrato detalhado da pós-graduação brasileira

O Censo da Pós-Graduação da Capes, uma iniciativa pioneira, foi projetado para coletar informações cruciais sobre os programas de mestrado e doutorado em todo o território nacional. Pela primeira vez, o Brasil busca consolidar um panorama estatístico abrangente que servirá de base para a elaboração de políticas públicas estratégicas, visando aprimorar a qualidade e a relevância da formação de alto nível no país. O levantamento, que teve seu período de preenchimento até o final de fevereiro, é fundamental para desvendar as nuances e os desafios enfrentados pela pós-graduação.

Abrangência e metodologia inovadora

A metodologia adotada pela Capes para este censo é caracterizada pela coleta de dados individual e obrigatória, realizada através da Plataforma Sucupira. Todos os participantes elegíveis — incluindo pós-graduandos matriculados em cursos de mestrado e doutorado, professores (permanentes e colaboradores), pesquisadores em estágio pós-doutoral que não atuam como docentes, e coordenadores de programas de Pós-Graduação (PPGs) em exercício — foram convocados a preencher um formulário eletrônico. Os questionários são customizados para cada perfil de entrevistado, garantindo a coleta de informações pertinentes e precisas. Para assegurar a correta interpretação e adesão, os formulários contam com definições e orientações claras, e os pró-reitores e coordenadores de PPGs são responsáveis por acompanhar e garantir a participação de seus programas dentro do prazo estabelecido. A divulgação dos resultados está prevista para 16 de novembro de 2026, momento em que o país terá acesso a um retrato inédito da sua pós-graduação.

A importância de dados para políticas públicas

A relevância do censo transcende a mera coleta de números. Ele é um instrumento vital para a definição de políticas públicas que possam levar luz, conhecimento e desenvolvimento aos diversos territórios do país. Dados detalhados sobre o perfil dos pós-graduandos e docentes – incluindo informações sobre gênero, raça, região de origem e situação socioeconômica – são escassos e cruciais para compreender quem são os indivíduos que impulsionam a pesquisa e a inovação. A presidente da Capes enfatizou que, enquanto há mais clareza sobre o perfil dos docentes (muitos são servidores públicos), ainda existem muitas dúvidas sobre os pós-graduandos. A coleta descentralizada e o caráter autodeclaratório dos questionários, com perguntas adaptadas a cada perfil, prometem estatísticas mais confiáveis e detalhadas, permitindo uma análise mais profunda das realidades enfrentadas por cada grupo.

Desafios e avanços na equidade e inclusão

A Capes está implementando uma nova abordagem na avaliação dos programas de pós-graduação, distanciando-se de uma análise puramente quantitativa e incorporando critérios quali-quantitativos. Essa mudança reflete uma compreensão mais holística do impacto acadêmico e social, que se estende às questões de equidade e inclusão, como a parentalidade e as políticas afirmativas.

Parentalidade e permanência acadêmica

Um dos eixos inovadores do censo é a inclusão de perguntas sobre parentalidade. Este aspecto visa mapear como a maternidade e a paternidade impactam a progressão nos cursos, a permanência acadêmica e a trajetória de alunos e docentes. A presidente da Capes destaca que a parentalidade é um excelente exemplo de política pública que busca a igualdade e que exige políticas de equidade. É inegável que pessoas com filhos pequenos, especialmente nos primeiros anos de um curso, enfrentam maiores dificuldades para produzir conhecimento no mesmo ritmo de quem não tem essas responsabilidades.

Para mitigar esses desafios, a Capes já incluiu a parentalidade nas fichas de avaliação de docentes, permitindo que os programas considerem um tempo de análise estendido para professores que atravessam períodos de cuidado com dependentes. Para os estudantes bolsistas, a lei garante a prorrogação do período da bolsa quando solicitada, reconhecendo o impacto da parentalidade. Essas medidas humanizam o ambiente acadêmico e visam reverter a disparidade observada no corpo docente, onde as mulheres, embora sejam maioria entre mestres e doutores desde 1997 e 2005, respectivamente, ainda são minoria entre os professores da pós-graduação. A maternidade é apontada como um dos principais fatores que impedem as mulheres de seguir a carreira acadêmica ou de se candidatar a vagas de docência, refletindo um viés implícito ou a falta de condições igualitárias.

Ações afirmativas e desigualdades regionais

O censo também aborda a inclusão de estudantes pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência nos programas de pós-graduação stricto sensu, conforme previsto na revisão da Lei de Cotas (nº 14.723/2023). Embora a Lei de Cotas na pós-graduação deixe a decisão de implementação a cargo de cada programa, dada a diversidade dos cursos, a Capes incentivará essa prática: programas com políticas afirmativas efetivas receberão melhor avaliação. O censo será crucial para verificar se essas políticas estão, de fato, incluindo os estudantes, e não apenas existindo na norma.

A experiência com as cotas na graduação, que foram alvo de críticas no passado mas demonstraram não reduzir a qualidade do ensino, serve como precedente. A entrada de estudantes de diferentes origens em programas de iniciação científica, que antes tinham maioria de brancos, demonstra que as políticas públicas estão no caminho certo, promovendo não apenas o acesso, mas também a permanência e o sucesso por meio de bolsas e oportunidades.

Além disso, o censo será fundamental para identificar as regiões com maiores carências na pós-graduação, questionando se o percentual de bolsas deve ser igual entre as diferentes regiões e áreas do conhecimento. Este olhar permitirá que o país saia do tradicional eixo Sul-Sudeste e direcione investimentos de forma mais equitativa, contribuindo para a redução da desigualdade social e para o desenvolvimento regional.

O futuro da formação de doutores e o impacto social

A Capes está reorientando a pós-graduação brasileira para atender não apenas às demandas acadêmicas, mas também às necessidades do setor produtivo e da sociedade em geral. Essa visão holística visa fortalecer o papel dos doutores no desenvolvimento nacional.

Da academia ao setor produtivo

A necessidade de formação de doutores para o ambiente acadêmico permanece inegável, especialmente para a renovação do corpo docente da pós-graduação, que tem envelhecido. No entanto, a Capes reconhece que nenhum país se desenvolve plenamente sem a interação entre universidade e empresa, sem um ambiente robusto de inovação. Neste sentido, o censo também buscará dados sobre a formação de doutores voltados para o setor produtivo não acadêmico.

Essa transição está alinhada com iniciativas governamentais como o plano Nova Indústria Brasil. A Capes já permitiu que o estágio obrigatório dos bolsistas possa ser realizado em qualquer ambiente, incluindo o empresarial, e os programas de pós-graduação estão sendo abertos para todo tipo de interação com a sociedade civil organizada e empresas. Nas novas fichas de avaliação, a Capes analisa os impactos regionais, locais, nacionais e até internacionais dessa interação, valorizando a produção que gera mudança em políticas públicas, novos tratamentos, processos ou produtos. Acordos de cooperação técnica com instituições como CNPq (Programa DAI), Embrapii e Finep demonstram a aproximação da Capes com o setor produtivo, enfatizando a importância de um doutor que dialogue diretamente com as demandas do mercado e da sociedade.

Qualidade, saúde mental e financiamento

A Capes também se preocupa em melhorar o ambiente da pós-graduação para que seja menos estressante, sem comprometer a qualidade dos cursos. A questão da saúde mental é multifatorial e presente em todos os níveis educacionais, mas a pós-graduação, apesar de ser um ambiente de aprendizado intenso e de sair da zona de conforto, apresenta um dos menores níveis de evasão no sistema educacional brasileiro, com taxas em torno de 4% a 5% em mestrados e doutorados. Reconhece-se que o estresse pode ser um gatilho para questões de saúde mental, e o censo ajudará a identificar como esses fatores impactam os pós-graduandos.

Um dos maiores estressores, contudo, é a falta de financiamento adequado. As bolsas de estudo são cruciais para que os indivíduos possam se dedicar integralmente à pós-graduação, pois a maioria dos mestrandos e doutorandos no Brasil não possui bolsa da Capes. O atual governo federal tem trabalhado para ampliar o número de vagas e de bolsas, reconhecendo que um país com mais mestres e doutores é um país mais desenvolvido. O financiamento não é apenas um suporte individual, mas um investimento estratégico em profissionais que farão a diferença para o Brasil, garantindo que o talento não seja desperdiçado por dificuldades financeiras.

Conclusão

O Censo da Pós-Graduação da Capes representa um salto qualitativo na compreensão e no direcionamento do ensino superior no Brasil. Ao reunir dados detalhados sobre a demografia dos estudantes e docentes, o impacto da parentalidade, a efetividade das políticas afirmativas e a interação com o setor produtivo, o levantamento oferece uma base robusta para a formulação de políticas públicas mais equitativas e eficazes. A transição para uma avaliação quali-quantitativa, focada nos impactos sociais e econômicos da pesquisa, demonstra um amadurecimento do sistema, alinhando a produção de conhecimento às necessidades de desenvolvimento do país. Os resultados, previstos para 2026, serão um divisor de águas para planejar o futuro da pós-graduação brasileira.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual o principal objetivo do Censo da Pós-Graduação da Capes?
O censo tem como principal objetivo coletar dados estatísticos detalhados sobre os programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil para orientar a formulação de políticas públicas que melhorem a qualidade e a relevância da pós-graduação, refletindo sua realidade.

2. Quem foi obrigado a participar deste levantamento?
A participação foi obrigatória para pós-graduandos matriculados (mestrado e doutorado), professores (permanentes e colaboradores), pesquisadores em estágio pós-doutoral que não atuam como docentes, e coordenadores de programas de Pós-Graduação (PPGs) em exercício.

3. Quando os resultados completos do censo serão divulgados?
A divulgação dos resultados está prevista para 16 de novembro de 2026.

4. Como a questão da parentalidade é abordada no censo e quais são as implicações?
O censo incorpora perguntas sobre parentalidade para mapear como ela impacta a progressão e a permanência acadêmica. As implicações incluem a implementação de políticas de equidade, como o tempo estendido de avaliação para docentes e a prorrogação de bolsas para estudantes que se tornam pais ou mães.

5. Qual a principal mudança na metodologia de avaliação dos programas de pós-graduação pela Capes?
A Capes está migrando de uma análise puramente quantitativa para uma abordagem quali-quantitativa, introduzindo a avaliação de “casos de impacto”. Isso significa que a qualidade e o impacto social, econômico e político das pesquisas serão mais valorizados, além do número de publicações.

Para mais informações sobre o futuro da educação e da pesquisa no Brasil, continue acompanhando as atualizações e análises do setor.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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