Em um discurso contundente na abertura do Fórum Econômico da América Latina e Caribe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o racha na América Latina, sublinhando a inação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Para Lula, o bloco está estagnado e incapaz de reagir a questões cruciais, como intervenções militares na região, o que reflete uma preocupante fragilidade. A América Latina, segundo ele, encontra-se dividida, priorizando agendas externas em detrimento de seus próprios interesses, abrindo espaço para conflitos ideológicos alheios e a proliferação do extremismo político e da desinformação. O presidente enfatizou a urgência de uma maior integração e união regional para enfrentar as “tentações hegemônicas” e garantir a soberania do continente.
A paralisia da integração regional e seus perigos
A América Latina, rica em cultura, recursos e potencial humano, encontra-se em um momento crítico, segundo a análise do presidente Lula. Sua crítica central reside na percepção de uma paralisia que assola os organismos de integração regional, em especial a Celac. Este bloco, concebido para fortalecer a voz e a autonomia da América Latina e do Caribe no cenário global, parece, em sua visão, ter se desviado de seu propósito original, mergulhando em um estado de inércia que compromete a capacidade da região de enfrentar desafios internos e externos.
A inação da Celac e o vácuo de liderança
A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) foi fundada com a ambição de ser um espaço de concertação política e cooperação, livre da influência de potências extrarregionais. No entanto, o presidente Lula apontou uma dolorosa verdade: a Celac falhou em se pronunciar sobre questões de suma importância para a soberania regional, como as intervenções militares que, em sua fala, remeteram diretamente a ações dos Estados Unidos na Venezuela. Essa omissão cria um perigoso vácuo de liderança e enfraquece a credibilidade do bloco.
A consequência direta dessa inação é uma América Latina que “voltou a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria”. As disputas ideológicas e os conflitos geopolíticos, muitas vezes alheios aos interesses genuínos da região, são absorvidos e amplificados, fragmentando ainda mais a capacidade de ação conjunta. Lula salientou que o extremismo político e a manipulação da informação, problemas globais, se incorporaram ao cotidiano latino-americano, minando a coesão social e política e dificultando a construção de uma agenda comum e progressista para o desenvolvimento regional.
Desafios externos e a defesa da soberania
Além das fragilidades internas, a América Latina enfrenta pressões externas significativas. A retórica de Lula destacou a “proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo” como uma referência inescapável. Essa proximidade, embora possa gerar oportunidades, também impõe desafios e, por vezes, pressões que testam a soberania dos países da região, especialmente em um contexto de “recrudescimento de tentações hegemônicas”.
“Tentações hegemônicas” e a influência geopolítica
As “tentações hegemônicas” referem-se às ambições de potências externas de exercer domínio ou influência desproporcional sobre a região, seja por meios militares, econômicos ou políticos. Em sua fala, Lula, sem citar nominalmente, aludiu a um contexto internacional onde figuras proeminentes questionaram a ordem multilateral e a autonomia de nações soberanas. Essa postura externa, combinada com a divisão interna, cria um cenário propício para a interferência e a erosão da soberania latino-americana.
Para combater essa tendência, o presidente reforçou a necessidade de uma agenda baseada no multilateralismo, na democracia, na paz e na estabilidade política, econômica e social. A união e a integração da região são apresentadas como o antídoto para as “tentações hegemônicas”, permitindo que os países latino-americanos atuem como um bloco coeso, defendendo seus interesses em um palco global cada vez mais complexo e competitivo. A capacidade de construir pontes e acordos com base no respeito mútuo e na cooperação é vista como fundamental para assegurar a autonomia e o progresso da América Latina.
A neutralidade do Canal do Panamá como pilar da autonomia
Um exemplo concreto e emblemático dessas “tentações hegemônicas” foi a ameaça de um ex-presidente dos Estados Unidos de retomar o controle do Canal do Panamá. Lula foi enfático na defesa da neutralidade da via interoceânica, administrada de forma eficiente, segura e não discriminatória pelo Panamá há quase três décadas. O Canal do Panamá não é apenas uma rota comercial vital; ele simboliza a capacidade de uma nação latino-americana de gerir um ativo estratégico global de forma independente e benéfica para o comércio mundial.
A defesa de sua neutralidade é, portanto, uma defesa da soberania e da capacidade de autogestão da América Latina. A integração e a infraestrutura, como pontuado por Lula, “não têm ideologia”. Isso significa que projetos de grande alcance que beneficiam a região devem ser guiados por princípios de pragmatismo e eficiência, e não por alinhamentos políticos voláteis. A manutenção da neutralidade do Canal é um teste à capacidade da região de proteger seus interesses vitais contra pressões externas e de garantir que infraestruturas estratégicas sirvam ao desenvolvimento coletivo.
A visão brasileira para a América Latina
A participação do presidente Lula no Fórum não foi apenas para criticar, mas também para apresentar a visão do Brasil para a região, baseada em sua experiência e em um histórico de engajamento. Ele aproveitou a oportunidade para fazer um balanço da atuação brasileira no âmbito regional e internacional, reafirmando o compromisso do país com a superação de desafios sociais urgentes.
Combate à fome e à desigualdade: a “única guerra”
Um dos pontos de maior destaque em seu discurso foi a menção à saída do Brasil do mapa da fome, um feito notável que demonstra o potencial de políticas públicas eficazes. Lula declarou que “a única guerra que precisamos travar é contra a fome e a desigualdade”. Essa frase encapsula uma filosofia de governo que prioriza o bem-estar social e a justiça distributiva sobre conflitos geopolíticos ou disputas ideológicas que pouco contribuem para a melhoria da vida das pessoas.
As “armas” para essa guerra, segundo o presidente, são a integração, o investimento e as parcerias. A integração regional não deve se limitar a acordos comerciais, mas avançar para a construção de redes de segurança alimentar, a coordenação de políticas sociais e o compartilhamento de tecnologias para o desenvolvimento sustentável. O investimento, tanto público quanto privado, é essencial para impulsionar a infraestrutura, a educação e a inovação, gerando oportunidades e reduzindo disparidades. Por fim, as parcerias, tanto intra-regionais quanto com outras partes do mundo, devem ser construídas sob bases de igualdade e benefício mútuo, fortalecendo a voz e a capacidade de negociação da América Latina no cenário global. A visão brasileira, portanto, é de uma América Latina unida, próspera e capaz de resolver seus próprios problemas, construindo um futuro de paz e estabilidade para seus povos.
Perguntas frequentes
1. O que é a Celac e qual a principal crítica de Lula a ela?
A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) é um bloco regional criado para promover a integração política, econômica, social e cultural da América Latina e do Caribe. A principal crítica de Lula é sua inação e paralisia, especialmente ao não se pronunciar sobre intervenções militares na região, o que, segundo ele, reflete uma América Latina dividida e sem capacidade de defesa de seus próprios interesses.
2. O que o presidente Lula quis dizer com “tentações hegemônicas”?
Com “tentações hegemônicas”, Lula se referiu às tentativas de potências externas de exercer domínio ou influência desproporcional sobre a América Latina, seja por meio de pressões políticas, econômicas ou militares. Ele destacou a proximidade com a maior potência militar do mundo como um fator que intensifica essas pressões, sublinhando a importância de a região se manter unida para preservar sua soberania.
3. Por que a neutralidade do Canal do Panamá é tão importante para a América Latina?
A neutralidade do Canal do Panamá é vital porque ele é uma das rotas de comércio marítimo mais importantes do mundo. Sua administração eficiente, segura e não discriminatória pelo Panamá, um país latino-americano, simboliza a autonomia e a capacidade da região de gerir ativos estratégicos globais. A defesa dessa neutralidade é uma forma de proteger a soberania regional contra tentativas de controle externo, garantindo que o canal continue a servir ao comércio global e aos interesses da América Latina.
4. Qual a “única guerra” que Lula defende para a região e como ele propõe travá-la?
Lula defende que a “única guerra” que a América Latina precisa travar é contra a fome e a desigualdade. Ele propõe travá-la por meio da integração regional, que inclui a coordenação de políticas sociais e de segurança alimentar; do investimento em infraestrutura, educação e inovação; e da construção de parcerias equitativas que beneficiem a todos, fortalecendo a capacidade da região de alcançar o desenvolvimento sustentável e a justiça social.
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