O Sistema Único de Saúde (SUS) receberá um importante reforço com a inserção de 760 novos profissionais especializados em enfermagem obstétrica. Fruto de um investimento de R$ 17 milhões, esta iniciativa visa fortalecer significativamente a atenção obstétrica e neonatal em todo o território nacional. A medida é crucial em um país onde a oferta de enfermeiros obstetras ainda é insuficiente para atender à demanda, com apenas 13 mil profissionais registrados. A formação desses especialistas busca não apenas ampliar o número, mas também aprimorar a qualidade do cuidado oferecido às gestantes, parturientes e recém-nascidos, promovendo partos mais humanizados e seguros dentro da rede pública de saúde.
Formação especializada para o SUS
A capacitação dos 760 profissionais integra o curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica da Rede Alyne. Este programa de formação foi concebido para enfermeiros com pelo menos um ano de experiência na atenção à saúde das mulheres no SUS, garantindo que os novos especialistas já possuam uma base de conhecimento prático. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) coordena a formação, atuando em parceria com 38 instituições e contando com o apoio essencial da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo). O objetivo central é suprir a lacuna de profissionais qualificados, que é uma das maiores fragilidades na assistência materno-infantil brasileira.
Investimento e abrangência do programa
O investimento de R$ 17 milhões na especialização demonstra o compromisso com a melhoria da saúde materna e neonatal. A formação abrange diversos aspectos da enfermagem obstétrica, preparando os profissionais para atuarem de forma abrangente, desde o acompanhamento pré-natal até o pós-parto. Ao formar um número expressivo de especialistas, a Rede Alyne busca gerar um impacto positivo direto nas maternidades e unidades de saúde do SUS, especialmente em regiões com maior carência. A iniciativa não só eleva o padrão de atendimento, mas também fortalece a autonomia e o papel do enfermeiro obstetra na condução de partos fisiológicos.
O déficit de enfermeiros obstetras no Brasil
A necessidade de um reforço na equipe de enfermagem obstétrica é evidenciada pela escassez de profissionais no país. Dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) revelam que, dos 13 mil enfermeiros obstétricos registrados, apenas 6.247 estão ativos em estabelecimentos de saúde. Esse número é notavelmente baixo quando comparado às necessidades de uma nação do porte do Brasil, impactando diretamente a capacidade de oferta de um atendimento humanizado e baseado nas melhores práticas.
Comparativo nacional e internacional
A disparidade numérica é ainda mais alarmante em um contexto internacional. Enquanto em países com modelos de atenção centrados na enfermagem obstétrica a densidade de profissionais varia entre 25 e 68 por mil nascidos vivos, o Brasil registra apenas cinco por mil nascidos vivos, segundo dados da Abenfo de 2023. Esta diferença ressalta a urgência de iniciativas como a Rede Alyne. Um conselheiro do Cofen avalia que o impacto da medida é positivo, principalmente ao comparar os números brasileiros com a realidade global. Em nações desenvolvidas, a proporção de enfermeiros obstetras para médicos é muito maior, indicando uma abordagem mais fisiológica e menos intervencionista no parto.
O papel vital do enfermeiro obstetra
O enfermeiro obstetra é um profissional altamente especializado, essencial no cuidado da mulher durante todas as fases da gestação, do parto e do pós-parto. Sua atuação foca em partos naturais e vaginais, promovendo uma experiência mais humanizada e segura para a gestante, garantindo maior confiança e tranquilidade. Este profissional realiza exames, auxilia ativamente no parto, presta cuidados ao recém-nascido e colabora com a equipe médica para assegurar um atendimento de alta qualidade.
Promovendo o parto humanizado e seguro
Uma das principais contribuições do enfermeiro obstetra é sua adesão à fisiologia do parto, permitindo que o corpo da mulher conduza o processo de forma natural. Essa abordagem reduz significativamente o número de intervenções desnecessárias, diminuindo, consequentemente, as iatrogenias – efeitos adversos ou patologias resultantes de tratamentos de saúde. No Brasil, que registra uma das maiores taxas de partos operatórios (cesáreas) do mundo, essa perspectiva é crucial. O parto cirúrgico, além de ir contra as recomendações científicas para gestações de risco habitual, pode multiplicar em até 70 vezes o risco de morte da mulher, como apontam especialistas. A presença do enfermeiro obstetra na rede, especialmente no SUS, é fundamental para reverter essa tendência e promover nascimentos mais seguros e respeitosos.
Desafios culturais e a Rede Alyne
A alta taxa de cesáreas no Brasil, muitas vezes, é atribuída a uma questão cultural. O parto natural ainda é estigmatizado como um “parto do SUS” ou “de pobre”, enquanto o parto operatório é associado a quem possui plano de saúde, àqueles que podem pagar por conveniência e que esperam um processo “sem dor”. Essa percepção cultural é reforçada pela mídia, que frequentemente retrata o parto natural como um momento de extremo sofrimento e angústia. Há uma lacuna de informações na cultura popular sobre os benefícios e a segurança do parto fisiológico.
Mudança de percepção sobre o parto
Enfermeiros obstetras defendem o parto com o mínimo de intervenções e combatem a violência obstétrica, que inclui procedimentos desnecessários como o uso indiscriminado de ocitocina ou a manobra de Kristeller – esta última, em que o útero é pressionado para auxiliar a expulsão do bebê, é contraindicada e considerada violência obstétrica pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O corpo feminino é “sábio”, e o parto abrupto pode afetar a maturidade neurológica e pulmonar do bebê. É vital que as mulheres sejam incentivadas a elaborar um plano de parto durante o pré-natal, discutindo suas preferências sobre o tipo de parto, o local, a equipe e os acompanhantes. Historicamente, o parto, que era um evento familiar, se tornou hospitalar, muitas vezes cerceando a autonomia da mulher sobre seu corpo e a presença de sua família.
A Rede Alyne e seus objetivos
Lançada em 12 de setembro de 2024, a Rede Alyne é um projeto governamental de assistência materno-infantil que reestrutura a antiga Rede Cegonha, de 2011. Seu objetivo primordial é reduzir a mortalidade materna em 25% e a mortalidade de mulheres negras em 50% até 2027. A iniciativa homenageia Alyne Pimentel, uma jovem negra que faleceu aos 28 anos, gestante e vítima de negligência médica, em um caso que levou à condenação do Brasil por morte materna no Sistema Global de Direitos Humanos. A Rede Alyne reafirma o compromisso com o enfrentamento das desigualdades na saúde, a luta pelos direitos das mulheres e a garantia de melhores condições de cuidado para gestantes, puérperas e bebês. Na cerimônia de lançamento, autoridades destacaram que o programa visa proteger a mulher e sua família, assegurando tratamento digno, respeito e acesso a toda a assistência pré-natal e ao parto.
Impacto na assistência e casos de sucesso
A presença de enfermeiros obstetras no SUS traz ganhos inestimáveis, como demonstrado por exemplos práticos. Um conselheiro do Cofen, que também é fruto de especialização em enfermagem obstétrica pela Rede Cegonha (precursora da Rede Alyne), relata sua experiência. Após sua pós-graduação em 2014, o Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas, onde atuava, viu o número de partos anuais saltar de 80-90 para 500-600, todos realizados com total segurança e perto das mulheres. Antes, as parturientes eram forçadas a se deslocar 120 quilômetros até a capital, muitas vezes em ambulâncias sem acompanhamento profissional, o que gerava sofrimento e riscos. Agora, elas podem parir em seu próprio município.
Ganhos para o SUS e comunidades
A formação dos 760 novos enfermeiros obstetras pode ampliar esses benefícios a outras regiões, embora o número ainda seja considerado insuficiente para o tamanho do Brasil. É fundamental que esses profissionais atuem não apenas em casas de parto, mas também na atenção básica, orientando as mulheres desde o pré-natal. Eles podem desmistificar o parto normal, explicar o processo, os direitos da gestante (como a escolha de acompanhantes) e o ambiente desejado para o parto. Ao promover uma abordagem mais natural e aberta à fisiologia, o enfermeiro obstetra facilita a proximidade da família e da comunidade, reduzindo desigualdades e humanizando o nascimento.
A experiência de Valéria Monteiro
A empresária Valéria Monteiro, de 28 anos, teve uma experiência positiva no nascimento de sua terceira filha, Maria Catarina, graças ao acompanhamento de uma enfermeira obstétrica. Ela relata que a profissional a acompanhou antes, durante e após o parto, fornecendo embasamento científico e instruções que lhe deram coragem e força para um parto normal, após uma cesárea anterior que foi traumática. Valéria, que já havia tido uma filha de parto normal com enfermeira obstétrica e outra de cesárea, enfatiza a importância de ter o apoio profissional para que as gestantes confiem em seus corpos e vivenciem o parto de forma tranquila e segura. Ela recomenda a todas as gestantes o parto normal acompanhado por um enfermeiro obstetra.
Realidades regionais e a necessidade de aprimoramento
A situação da enfermagem obstétrica varia regionalmente. Na capital do Rio de Janeiro, por exemplo, a coordenadora materno infantil da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) confirma que as maternidades estão bem supridas com esses profissionais, que são fundamentais para a condução de partos fisiológicos de risco habitual. Ela destaca que esses enfermeiros são cruciais para o bom funcionamento dos serviços, liberando os médicos para casos de maior complexidade. Em algumas maternidades estaduais, como o Hospital da Mãe de Mesquita, mais de 70% dos partos vaginais são conduzidos por enfermeiras especializadas.
Desafios e soluções no Rio de Janeiro
No entanto, em regiões mais afastadas da capital fluminense, como a baixada litorânea, a serra e o sul do estado, há dificuldades na disponibilidade de enfermeiros obstetras. O problema não é apenas a falta de diplomas, mas a carência de experiência prática para assumir plantões e lidar com as variáveis imprevisíveis do parto. Muitos cursos à distância, embora ofereçam qualificação teórica, não proporcionam a vivência e a segurança necessárias. Diante disso, a SES-RJ tem buscado contratar enfermeiras obstétricas mais experientes e, quando necessário, oferece capacitação em serviço, permitindo que os profissionais apliquem e aprimorem seus conhecimentos na prática. A rede municipal de saúde do Rio conta com 13 maternidades e uma Casa de Parto, todas com a presença da enfermagem obstétrica.
Perguntas frequentes
Qual é o papel de um enfermeiro obstetra?
O enfermeiro obstetra é um profissional especializado que oferece cuidados abrangentes à mulher durante a gravidez, o parto e o pós-parto, com foco em partos naturais e humanizados. Ele realiza exames, auxilia no nascimento, cuida do recém-nascido e colabora com a equipe médica para garantir a segurança e o bem-estar da mãe e do bebê, promovendo intervenções mínimas e respeitando a fisiologia do corpo feminino.
Por que a formação de enfermeiros obstetras é importante para o SUS?
A formação e a inserção de enfermeiros obstetras são vitais para o SUS porque fortalecem a atenção materno-infantil, promovem partos mais humanizados e seguros, e contribuem para a redução das altas taxas de cesáreas e da mortalidade materna e infantil. Esses profissionais ajudam a suprir um déficit significativo de especialistas no país, melhorando o acesso e a qualidade dos serviços de saúde em todo o território nacional, especialmente em áreas carentes.
O que é a Rede Alyne?
A Rede Alyne é um programa governamental de assistência materno-infantil lançado em 2024, que sucede a antiga Rede Cegonha. Seu principal objetivo é reduzir a mortalidade materna em 25% (e em 50% entre mulheres negras) até 2027, garantindo atenção humanizada e de qualidade para gestantes, parturientes, puérperas e recém-nascidos. O programa homenageia Alyne Pimentel, uma vítima de negligência médica materna, simbolizando o compromisso com a equidade e os direitos das mulheres na saúde.
O que é violência obstétrica?
Violência obstétrica refere-se a práticas ou omissões que desrespeitam, humilham, maltratam ou causam danos físicos e psicológicos à mulher durante a gravidez, parto ou pós-parto. Isso pode incluir procedimentos desnecessários e sem consentimento (como a manobra de Kristeller ou o uso indiscriminado de ocitocina), falta de informação, negação de acompanhante, comentários desrespeitosos ou negligência no atendimento. É considerada uma violação dos direitos humanos das mulheres.
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