Em 20 de janeiro, o Brasil celebra o Dia Nacional das Parteiras Tradicionais, uma data dedicada a honrar o legado e a contribuição inestimável dessas profissionais para a saúde e bem-estar das comunidades, especialmente em áreas rurais e remotas. Este dia, instituído por lei em 2015, reconhece oficialmente o saber ancestral transmitido de geração em geração, essencial para o acompanhamento de gestações e partos há séculos. A figura da parteira tradicional transcende a assistência médica, representando um pilar cultural e social, detentora de conhecimentos sobre ervas, rituais e cuidados que são passados de boca em boca. A celebração é um tributo à sabedoria e resiliência dessas mulheres que, com suas mãos e corações, dão vida e esperança, mantendo viva uma tradição milenar fundamental para o país.
O legado das parteiras tradicionais no Brasil
Raízes históricas e a figura da parteira
No vasto território brasileiro, desde os tempos coloniais e com forte influência das culturas indígena e africana, as parteiras tradicionais sempre foram pilares fundamentais para a saúde materna e infantil, especialmente em regiões onde o acesso a serviços médicos formais era – e muitas vezes ainda é – inexistente ou precário. Sua atuação vai muito além da simples assistência ao parto; elas são figuras de confiança, conselheiras e curandeiras, que acompanham a mulher desde o início da gestação até o pós-parto, oferecendo suporte físico, emocional e espiritual. Dotadas de um conhecimento empírico profundo, transmitido oralmente de mãe para filha ou de mestra para aprendiz, essas mulheres dominam técnicas de massagem, uso de ervas medicinais, e práticas ancestrais que visam garantir a segurança e o bem-estar da mãe e do bebê, respeitando os ritos e crenças locais. Elas representam a resiliência e a capacidade de organização comunitária diante da escassez de recursos.
O reconhecimento legal de um saber milenar
A importância das parteiras tradicionais para a saúde pública e a preservação cultural foi formalmente reconhecida em 2015, com a sanção de uma lei pela então presidente Dilma Rousseff, que instituiu o Dia Nacional das Parteiras Tradicionais em 20 de janeiro. Essa legislação representa um marco significativo, não apenas por homenagear essas mulheres, mas por validar legalmente um tipo de conhecimento e prática que por muito tempo foi marginalizado ou invisibilizado pelo sistema de saúde formal. O reconhecimento legal abre portas para a valorização, o apoio e a integração desses saberes ancestrais, permitindo que as parteiras atuem em diálogo com os serviços de saúde, promovendo o respeito à diversidade cultural nos cuidados com a gestação e o parto. Essa formalização é o resultado de anos de luta e articulação de movimentos sociais, organizações não governamentais e as próprias parteiras, que buscaram garantir o devido lugar para essa profissão histórica.
Suely Carvalho: Uma guardiã do conhecimento ancestral
Multiplicidade de papéis e a Rede Nacional
Suely Carvalho emerge como uma figura central na defesa e promoção do saber das parteiras tradicionais no Brasil e na América Latina. Sua trajetória multifacetada a posiciona como griô – detentora e transmissora de histórias e conhecimentos orais –, rezadeira, curandeira xamânica e mestra da Escola de Aprendizes de Parteira na Tradição. Ela é a coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil, uma iniciativa vital para conectar, fortalecer e dar voz a essas profissionais em todo o país. Além disso, Suely ocupa a vice-presidência da Aliança Latino Americana de Parteiras (Alapar) e é a fundadora da ONG Cais do Parto, entidades que trabalham incansavelmente pela valorização e pelo reconhecimento das parteiras. Seus múltiplos papéis demonstram um compromisso profundo com a preservação e a transmissão de um legado cultural e de saúde que é intrínseco à identidade brasileira.
A transmissão online e o futuro da tradição
Em um movimento inovador que une tradição e modernidade, Suely Carvalho também lidera, há seis anos, um grupo online da escola de saberes do Cais do Parto. Essa iniciativa digital é crucial para a transmissão da sabedoria ancestral das parteiras a novas gerações e a um público mais amplo, superando barreiras geográficas e facilitando o acesso ao conhecimento milenar. A plataforma online permite que aprendizes e interessados em todo o Brasil e até mesmo no exterior possam absorver práticas, histórias e filosofias que, de outra forma, poderiam se perder ou ficar restritas a círculos muito específicos. Essa abordagem demonstra a adaptabilidade e a resiliência das parteiras tradicionais em manter seu legado vivo, utilizando ferramentas contemporâneas para assegurar a continuidade de uma prática essencial para a saúde e a cultura do país.
Juliana Magave de Souza: A inspiração para a data
Um exemplo de longevidade e sabedoria
A escolha do dia 20 de janeiro como Dia Nacional das Parteiras Tradicionais foi diretamente inspirada pela vida e obra de Juliana Magave de Souza, a mais antiga parteira de Macapá, nascida em 1908. Sua longevidade, dedicação e vasto conhecimento representam a essência do que as parteiras tradicionais simbolizam: sabedoria acumulada ao longo de décadas de experiência, resiliência e um profundo compromisso com a vida. Juliana Magave de Souza é um ícone, uma prova viva da eficácia e da importância do saber ancestral. Sua história destaca a capacidade dessas mulheres de serem guardiãs de um conhecimento que transcende gerações, influenciando positivamente inúmeras vidas e famílias. Homenageá-la com a data nacional é um reconhecimento de que a sabedoria não está apenas nos livros, mas também nas mãos e na memória daqueles que viveram e praticaram o cuidado por toda uma vida.
Impacto nas comunidades e os avanços recentes
Saúde materna em regiões remotas
O impacto das parteiras tradicionais na saúde materna e infantil, especialmente em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, é imensurável. Em muitas dessas localidades, elas são a única referência de saúde para as gestantes, oferecendo um atendimento que integra conhecimentos práticos com o respeito às particularidades culturais de cada grupo. A presença dessas profissionais contribui significativamente para a redução da mortalidade materna e neonatal, através da identificação precoce de riscos, do acompanhamento humanizado do parto e dos cuidados pós-parto, incluindo a orientação para a amamentação e a higiene do bebê. Elas atuam como uma ponte entre as comunidades e o sistema de saúde formal, muitas vezes realizando os primeiros encaminhamentos quando uma complicação grave é identificada. A confiança que as comunidades depositam nelas é um fator crucial para a adesão aos cuidados e para o sucesso de sua intervenção.
Desafios e perspectivas para o futuro
Apesar dos avanços no reconhecimento legal, as parteiras tradicionais ainda enfrentam diversos desafios. A integração plena com o sistema de saúde, a garantia de direitos e apoio governamental, e a superação de preconceitos são batalhas contínuas. A sustentabilidade da transmissão do saber ancestral também é uma preocupação, dado o envelhecimento de muitas parteiras e a necessidade de atrair e formar novas gerações. No entanto, o cenário atual também apresenta perspectivas promissoras. Iniciativas de capacitação, articulação em redes e o uso de tecnologias digitais para a difusão do conhecimento, como o grupo online de Suely Carvalho, apontam para um futuro em que a tradição pode coexistir e se fortalecer com a modernidade. A valorização de sua atuação é essencial para um sistema de saúde mais equitativo, inclusivo e que respeite a rica diversidade cultural do Brasil.
A perenidade de um saber essencial
O Dia Nacional das Parteiras Tradicionais, celebrado em 20 de janeiro, transcende uma mera data comemorativa; é um símbolo do reconhecimento profundo e contínuo de um saber ancestral que moldou e continua a moldar a saúde e a cultura brasileiras. A trajetória de figuras como Suely Carvalho e a inspiração de Juliana Magave de Souza ilustram a força e a resiliência dessas mulheres, que são verdadeiras guardiãs da vida e do patrimônio imaterial do país. A luta pela valorização, apoio e integração das parteiras tradicionais ao sistema de saúde é um compromisso com um futuro onde o cuidado humanizado, respeitoso e culturalmente adequado seja uma realidade para todas as mulheres e famílias, garantindo que o legado dessas mães primeiras continue a florescer.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. O que é uma parteira tradicional?
Uma parteira tradicional é uma mulher que auxilia outras mulheres durante a gravidez, o parto e o pós-parto, utilizando conhecimentos ancestrais, empíricos e culturais transmitidos oralmente entre gerações, sem formação acadêmica formal em medicina ou enfermagem. Elas são figuras de confiança e referência nas comunidades, especialmente em áreas remotas.
2. Por que o dia 20 de janeiro foi escolhido para celebrar as parteiras tradicionais?
O dia 20 de janeiro foi escolhido em homenagem a Juliana Magave de Souza, uma das mais antigas parteiras de Macapá, nascida em 1908. Sua vida de dedicação e o vasto conhecimento ancestral que ela representava serviram de inspiração para a instituição da data por lei em 2015.
3. Como as parteiras tradicionais contribuem para a saúde pública no Brasil?
As parteiras tradicionais desempenham um papel crucial na saúde pública, especialmente em regiões com limitado acesso a serviços de saúde. Elas oferecem cuidados pré-natais, assistência ao parto e pós-parto, e orientação sobre saúde da mulher e do bebê, contribuindo para a redução da mortalidade materna e infantil e para a promoção do bem-estar nas comunidades, com um cuidado humanizado e culturalmente adequado.
4. Qual o papel da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil?
A Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil é uma organização que busca articular, fortalecer e dar voz às parteiras em todo o país. Coordenada por lideranças como Suely Carvalho, a Rede trabalha pela valorização, reconhecimento legal e integração das parteiras ao sistema de saúde, além de promover a troca de conhecimentos e experiências entre elas.
Para aprofundar seu entendimento sobre o inestimável trabalho das parteiras tradicionais e apoiar a preservação desse saber ancestral, busque conhecer as iniciativas do Cais do Parto e da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil. Sua contribuição fortalece a cultura do cuidado humanizado.
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