O setor editorial e de livros tem demonstrado notável expansão no Brasil, com um crescimento de 13% projetado entre 2023 e 2025, conforme levantamentos da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Este cenário de desenvolvimento não apenas impulsiona a economia do livro, mas também reforça o propósito e a paixão de muitos profissionais que dedicam suas vidas à produção e difusão do conhecimento e da cultura. Em meio a esse ambiente de efervescência, editores, tradutores e outros especialistas do mercado literário compartilham suas jornadas, os desafios superados e as obras que marcaram suas carreiras, revelando a profunda conexão com o universo dos livros. Suas experiências ilustram como a paixão pela leitura e a crença no poder das palavras moldam não apenas suas rotinas profissionais, mas também suas vidas pessoais.
A jornada de Hugo Maciel de Carvalho: do direito aos livros
O orgulho de dar forma a ideias
Hugo Maciel de Carvalho, editor autônomo e publisher, personifica a busca por propósito em uma carreira reorientada. Formado em Direito e com experiência em escritórios de advocacia, Hugo ajustou sua rota para o mercado editorial, impulsionado pela satisfação de ver seu nome nos créditos de obras significativas. Para ele, o verdadeiro valor reside em saber que contribuiu para moldar ideias que circulam, são lidas, discutidas e que continuam a produzir sentido no mundo. “Eu me orgulho muito de poder ver o meu nome nos créditos de livros que sejam realmente incríveis, saber que eu sou parte de uma obra cuja leitura pode, eventualmente, ser a leitura da vida de alguém”, expressa Hugo.
Ao longo de sua trajetória, Hugo perdeu a conta de quantos livros levam sua assinatura. Entre os projetos mais queridos, ele destaca “A Terra Árida”, do autor T.S. Eliot, na tradução de Gilmar Leal Santos. Este poema, um de seus favoritos, marcou sua estreia como publisher em seu selo. Além de clássicos, o editor valoriza projetos que instigam a reflexão sobre o futuro. Ele menciona dois livros em que trabalhou como preparador de texto e que, juntos, oferecem uma análise crítica da sociedade contemporânea: “Autonorama”, de Peter Norton, que explora as escolhas políticas que moldaram infraestruturas sociais corrosivas, e “Estrada para Lugar Nenhum”, de Paris Marx, que amplia esse diagnóstico ao analisar a concentração de poder e a privatização de infraestruturas. Recentemente, Hugo também trabalhou em “A Escada de Jacó”, da escritora russa Liudmila Ulítskaia, um romance monumental ainda não publicado que cruza literatura, linguística, filosofia, música, ciência e história ao acompanhar várias gerações de uma família russa ao longo do Século XX.
Tradição familiar e o legado do avô
A leitura é uma tradição familiar para Hugo Maciel de Carvalho. Ele lê para o filho desde o nascimento, e as visitas semanais a bibliotecas públicas são um ritual. Mesmo com o filho já sabendo ler sozinho, a leitura em conjunto com a esposa é uma prática diária, que fortalece a memória afetiva da família como leitores. A própria paixão de Hugo pelos livros começou aos 12 anos, de forma inusitada, quando seu avô lhe entregou um manuscrito em segredo, pedindo sua opinião. Essa experiência singular deu início a uma colaboração “secreta” que resultou na publicação da primeira edição do livro do avô. Eles continuaram a trabalhar juntos em mais três obras, e Hugo guarda a intenção de um dia publicar as “Obras completas” do avô, um legado de carinho e dedicação.
O ritmo de trabalho no setor editorial, especialmente para revisores e editores, é, segundo Hugo, intenso e exigente. Ele descreve a necessidade de ler, reler, discutir com autores e editoras, e muitas vezes trabalhar de madrugada para garantir o silêncio e a concentração. Apesar da paixão, a realidade financeira do revisor pode ser desafiadora. “Paga muito pouco. As pessoas acham que ser revisor de textos é um ‘bico’ interessante. Mas dá muito trabalho, se você sabe o que está fazendo. E nem sempre tem demanda”, relata Hugo com bom humor, evidenciando as oscilações e a necessidade de criatividade para manter a renda.
Florencia Ferrari e o compromisso das editoras independentes
Ubu: um espaço de criação e ética
Florencia Ferrari, sócia da Ubu Editora, compartilha a visão de que as editoras independentes geralmente nascem do desejo profundo dos editores de publicar obras que amam e admiram. Para ela, a Ubu transcende a função de um negócio, funcionando como uma plataforma de projetos que proporciona oportunidades de criação, aprendizado e colaboração com designers, artistas e autores. O trabalho na Ubu é, para Florencia, um lugar de realização e uma forma de estar no mundo, indo além da mera geração de renda.
Um dos pilares da Ubu é a construção de um ambiente de trabalho saudável e colaborativo. Florencia, que já vivenciou ambientes tóxicos, competitivos e de controle, prioriza na Ubu uma cultura de troca, aprendizado, apoio e cuidado, onde a liderança é exercida por aqueles que dominam suas respectivas áreas. Além disso, a editora se destaca por seu posicionamento ético e político, uma característica que Florencia associa a diversas editoras independentes. “Eu vejo a Ubu como um lugar de posicionamento e de pensamento, inclusive de atitude crítica, no sentido do Foucault, de atitude política, de se colocar”, explica, ressaltando que essa postura é uma ética política, não uma militância.
Adail Sobral: a vida dedicada à tradução de mais de 500 obras
Do acaso à especialização e à paixão
Adail Sobral, professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e tradutor, construiu uma carreira impressionante, traduzindo mais de 500 livros. Ele também foi jurado do Prêmio Jabuti em 2004, 2007, 2008 e 2018. Sua entrada no universo da tradução foi, segundo ele, por acaso. Em 1981, ainda aluno de pós-graduação, começou a traduzir “Atos de fala”, de John Searle, como parte de atividades acadêmicas. O que começou como uma tarefa universitária sem remuneração, rapidamente se transformou em paixão. De 1985 a 1999, Adail dedicou-se integralmente à profissão, muitas vezes trabalhando em parceria com sua então esposa, Maria Stela Gonçalves (1954-2015).
A versatilidade de Adail o levou a explorar diversas áreas. Inicialmente, traduziu muitos livros de informática, que garantiam seu sustento. Posteriormente, migrou para as ciências humanas, traduzindo autores como Jean Baudrillard, Jonathan Barnes, David Harvey e Félix Guattari, além de obras religiosas. Mais tarde, especializou-se na área de medicina, que se mostrou mais rentável. Entre as obras que mais gostou de traduzir, Adail destaca “Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell. Ele aprecia a forma literária e técnica como Campbell aborda a mitologia. Esta tradução teve a particularidade de ter sido revisada pelo próprio Adail. Outro trabalho memorável foi “A troca simbólica e a morte”, de Jean Baudrillard, traduzido com Maria Stela. O casal também realizou a árdua e gratificante tarefa de traduzir as obras completas de Santa Teresa de Jesus, um projeto de 2 mil páginas de um original do século XVI, que exigiu um ano de dedicação intensa para adaptar a linguagem ao tempo moderno.
Desafios e a busca por valorização profissional
Apesar da paixão e do encontro com sua vocação, Adail Sobral relata o cansaço causado pelas longas jornadas de trabalho. Ele chegou a traduzir 14 horas por dia, atendendo a dois ou três clientes simultaneamente. Essa intensidade o levou a retornar à universidade após 15 anos dedicados exclusivamente à tradução. A experiência de Adail também joga luz sobre a desvalorização profissional dos tradutores no passado. Ele descreve uma relação “quase paternalista” onde não eram plenamente considerados profissionais e a remuneração era baixa, exigindo um volume massivo de trabalho para a subsistência. “Hoje eu acho que está um pouco melhor, mas nem tanto também”, comenta.
Adail explica que, no passado, empregadores justificavam salários menores pelo pagamento ao INSS. Atualmente, muitos tradutores atuam como pessoa jurídica, mas a desvalorização persiste. As grandes editoras no Brasil, segundo ele, ditam os preços das traduções, enquanto as menores, apesar de mais abertas à negociação, possuem menor poder aquisitivo. A remuneração é melhor em traduções de áreas técnicas, que exigem precisão terminológica, e na prestação de serviços para clientes estrangeiros, revelando as disparidades do mercado nacional.
A paixão que move o setor editorial
As histórias de Hugo Maciel de Carvalho, Florencia Ferrari e Adail Sobral convergem em um ponto essencial: a paixão intrínseca pelo livro e o propósito que encontram em suas profissões. Seja na edição que dá forma a ideias, na construção de um ambiente editorial ético e colaborativo, ou na arte da tradução que transpõe barreiras culturais e linguísticas, esses profissionais revelam a dedicação e o amor pelo que fazem. Mesmo diante de desafios como a intensidade do trabalho, a desvalorização profissional e a busca por sustentabilidade, o setor editorial no Brasil segue impulsionado por indivíduos que acreditam no poder transformador das palavras e na importância de cada obra para enriquecer a vida de leitores e moldar o pensamento coletivo. Suas trajetórias são um testemunho da vitalidade e da relevância contínua do universo literário.
Perguntas frequentes sobre o setor editorial
Qual é o principal propósito dos profissionais do setor editorial?
O principal propósito dos profissionais do setor editorial é dar forma a ideias, facilitar a difusão do conhecimento, da cultura e do entretenimento, e conectar autores a leitores, contribuindo para a construção de um legado literário e intelectual.
Quais os desafios enfrentados por tradutores e editores no Brasil?
Tradutores e editores enfrentam desafios como a intensidade do ritmo de trabalho, a oscilação na demanda, a remuneração por vezes insuficiente para o volume e a complexidade das tarefas, além da persistente desvalorização profissional em certos segmentos do mercado.
Como as editoras independentes se destacam no mercado?
As editoras independentes se destacam por serem frequentemente impulsionadas pela paixão dos editores, pela capacidade de criar ambientes de trabalho colaborativos e éticos, pela busca por posicionamentos políticos e culturais relevantes, e pela disposição de inovar e explorar nichos específicos.
A leitura é um hábito familiar para quem trabalha com livros?
Sim, para muitos profissionais do setor, a leitura é uma tradição familiar, cultivada desde a infância e transmitida às gerações futuras, reforçando a conexão afetiva e intelectual com os livros tanto na vida pessoal quanto na profissional.
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