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© Valter Campanato/Agência Brasil

Rio Grande do Norte Eleva ’40 Horas de Angicos’ de Paulo Freire a Patrimônio Cultural Imaterial

Uma das mais emblemáticas ações educativas do Brasil, concebida e implementada pelo renomado educador Paulo Freire no interior do Nordeste durante a década de 1960, alcançou um novo e significativo status. A iniciativa, popularmente conhecida como “40 Horas de Angicos”, foi oficialmente reconhecida esta semana pelo governo do Rio Grande do Norte como Patrimônio Cultural Imaterial do estado, um marco que celebra seu profundo impacto na pedagogia e na sociedade.

Angicos: O Berço de uma Metodologia Revolucionária

Desenvolvida na cidade potiguar de Angicos, que à época contava com aproximadamente 9,5 mil habitantes, a experiência pedagógica de Freire transcendeu os métodos tradicionais de ensino. Seu modelo inovador propunha um processo de letramento pautado nas vivências, nos saberes pré-existentes e na realidade social dos próprios alunos. Ao utilizar palavras do cotidiano dos participantes como ponto de partida para o aprendizado da leitura e escrita, Freire não apenas alfabetizava, mas também engajava os indivíduos em uma reflexão crítica sobre seu mundo, demonstrando a aplicabilidade de sua pedagogia para além das fronteiras brasileiras e impactando a maneira de lecionar globalmente.

A Concretização e a Interrupção de um Sonho Educacional

O projeto foi concretizado a convite da Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Norte, iniciando-se em 28 de janeiro de 1963 e culminando em 2 de abril do mesmo ano. A ousada meta era alfabetizar adultos em apenas 40 horas de atividades – daí o nome que se popularizou. A primeira turma reuniu um total de 380 participantes, dos quais cerca de 300 obtiveram êxito na conclusão do curso, atestando a eficácia da proposta. Embora a intenção inicial fosse expandir o programa para outras regiões do estado, visando combater os alarmantes índices de analfabetismo da época, a iniciativa foi bruscamente interrompida. O golpe militar de 1964 resultou na prisão e posterior exílio de Paulo Freire, e a educação popular enfrentou severas restrições durante o período da ditadura militar brasileira.

O Abrangente Significado do Reconhecimento Atual

A titulação como patrimônio vai além da mera formalidade de um projeto. Ela abarca um espectro mais amplo, englobando as memórias vivas, os relatos orais transmitidos entre gerações, os saberes e as práticas pedagógicas que foram intrinsecamente associados às comunidades e indivíduos que participaram ou foram impactados pela metodologia de Freire. O reconhecimento busca assegurar a valorização do significado histórico, cultural e educacional dessa ação, contribuindo para a preservação do legado pedagógico de Paulo Freire para as futuras gerações. Entre seus objetivos primordiais estão o incentivo a novas pesquisas sobre o tema, a divulgação de referências históricas e culturais pertinentes, e o fortalecimento dos mecanismos de transmissão desse valioso patrimônio imaterial, garantindo que sua influência continue a inspirar educadores e transformadores sociais.

Dessa forma, o Rio Grande do Norte não apenas resgata uma parte crucial de sua história, mas também reafirma a perenidade do pensamento freiriano, um farol de esperança e empoderamento através da educação para um país que ainda busca superar os desafios do letramento e da cidadania plena. O reconhecimento de '40 Horas de Angicos' é um testemunho da capacidade transformadora da educação e um tributo à persistência de um legado que ressoa em cada sala de aula que busca conectar o conhecimento à vida.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br