Barueri

Veja qual escola de samba ganhou o Carnaval 2022 do Rio de Janeiro

Acadêmicos do Grande Rio foi a escola de samba campeã do Carnaval do Rio de Janeiro pela primeira vez. A apuração ocorreu nesta terça-feira (26).

A Grande Rio, de Duque de Caxias (Baixada Fluminense), levou ao Sambódromo o orixá Exu, divindade de origem africana. O público aplaudiu um desfile em que não só nenhum carro alegórico quebrou como a história foi narrada com maestria, as fantasias e alegorias esbanjavam luxo e o samba, embora repleto de palavras em dialetos africanos (um trecho de um dos refrões era “adakê exu, exu, ê, odará / ê bará ô, elegbará!”), contagiou o público, que em diversos setores das arquibancadas entoou gritos de “é campeã”.

A escola foi para a avenida com 3.200 componentes, 270 ritmistas e 29 alas. As alegorias somaram ao todo cinco, contando com dois tripés.

A atriz Paolla de Oliveira, rainha de bateria, usou uma fantasia chamada “Sou do fogo e da gargalhada”. De acordo com a Liesa, uma interpretação do “universo que nos leva a ardentes noites de paixão e às chamas dos desejos mais intensos”.

Além de Paolla Oliveira foram destaques na escola David Brazil, Gil do Vigor, Adriana Bombom, Monique Alfradique e Bianca Andrade. Além de Demerson Dalvaro, o Exu da Escola de Caxias

Confeccionado por Michelly X, o figurino evoca a magia das Pombagira que levam homens e mulheres ao delírio, à embriagues e aos jogos de sedução.

GABRIEL MONTEIRO/RIOTUR

A escola encerrou o desfile com um carro alegórico que fazia menção ao lixão do Jardim Gramacho, bairro de Duque de Caxias, e lembrou muito um dos desfiles mais aclamados do carnavalesco Joãosinho Trinta, o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, de 1989.

A São Clemente, que levou para a pista a história do humorista Paulo Gustavo, ficou em último e foi rebaixada.

Por não ser feriado, a apuração atraiu um público menor que nos anos anteriores. Ainda assim, torcedores de todas as escolas se fizeram presentes nas arquibancadas, com faixas e bandeiras. Até um cartaz em memória da menina Raquel Antunes, morta em um acidente com carro alegórico, foi levado por um torcedor.

A quadra da Grande Rio, em Duque de Caxias, ficou pequena para os torcedores, que comemoraram muito o título inédito.

A Grande Rio foi campeã com nota geral 269,9. Em segundo lugar ficou a Beija-Flor de Nilópolis, com 269,6 pontos. A São Clemente, que prestou homenagem ao ator, escritor e humorista Paulo Gustavo, morto pela covid-19 no ano passado, foi rebaixada

Confira a classificação das escolas do Carnaval do Rio 2022

  • Acadêmicos do Grande Rio – 269,9 (campeã)
  • Beija-Flor de Nilópolis – 269,6
  • Unidos do Viradouro – 269,5
  • Unidos de Vila Isabel – 269,3
  • Portela – 269,2
  • Acadêmicos do Salgueiro – 268,3
  • Estação Primeira de Mangueira- 268,2
  • Mocidade Independente de Padre Miguel- 268,2
  • Unidos da Tijuca – 267,9
  • Imperatriz Leopoldinense – 266,9
  • Paraíso do Tuiuti – 266,4
  • São Clemente – 263,7 (rebaixada)

Confira o enredo da Grande Rio

Quem sou eu… Quem sou eu?

1
– Câmbio, Exu! Fala, Majeté!

Exu, princípio de tudo: gira, faísca, espiral, movimento, corpo-redemoinho, Okotô!, desterro, fervura, espanto, espuma, axé da Terceira Cabaça, Igbá Ketá. Que abre, então, os caminhos: L’Onan, Legba, Eleguá, Bará, Elegbara, Mavambo – pé na porta, pedrada, com sete chaves nas mãos, o nó das encruzilhadas, tranca, carranca, Calunga Grande, porteiras, ponteiras, diásporas, às travessias na barca, correntes os olhos e as águas. Salve Aluvaiá, Salve Bombogira! “O que se há de?” – mar de dendê! O que será?

2
Exu que se fez caboclo, poeira, na cruza, em brasa, chão de terreiro, fora da casa – o mundo inteiro nos pés de andarilhos peregrinantes. Os chifres, os dentes, os búzios, as garras: batalhas! Ali, tanto sacrifício: argila vermelha na praia. Rasgos, penhascos, altares, o orí, a voz de Palmares: os gritos, os mitos, os guizos, a cabeça de Zumbi, “mortal eterno”, “ente coletivo” ao sol do mais verde encanto (porque Zumbi-Exu está em tudo quanto é canto). Agbá! – espraiou-se o culto, firmeza e toque. Sigamos!

3
Exu de proezas tantas, pelejas, orikis, Ifá, adivinhação, histórias fragmentadas nas entrelinhas de odús – o destino do rei de Oió e o trono do Engenho Velho. Odusô, o guardião. Erro que vira acerto, certo que brota errado, do outro lado, enigma, tempero, vuco-vuco, o remédio e o veneno. Tendas, feiras, farofas, recados, as lendas da criação debulhadas nos mercados, o corpo que voa fechado e a visão de cada um: ninguém pode viver sem mim. Preceitos, pressentimentos, trotes, fabulações. Trocas, trocadilhos, línguas desgovernadas. Ciscos, lâminas, lágrimas – Olobé, Elebó, cachimbos, caixotes, cachaça. Truques de linguagem: traquinagens. Osijê, Obá Babá! Oferendas d’Eleru. Pimentas!

4
“Salve o Sol, salve a estrela, salve a Lua!” Saravá, Seu Tranca Rua! Exu que são muitos em um: corpo em si desdobrável. Fala, falo e falácia: falanges. Alafia! Centenas de sobrenomes que vem de muitos lugares – Rio que leva as gentes, ruas que tudo dragam. Exu, malandro Pelintra, Padilha, fio de Navalha, ponta de agulha, os cacos da noite, as sombras da Lapa, Marias, ciganos, cigarras, jogo e cartas na mesa, rendas, vidrilhos, rasteiras, meio-fio das quebradas, rabos de galo e de saia, também os rabos de arraia, o cheiro bom da cerveja, destreza, sem falar nas gargalhadas. O primeiro gole é dele! Exu, Veludo encarnado, luz de abajur, sonhos bordados – sentimentalmente, visivelmente. “Exu Caveira, Capa Preta, Sete Catacumbas estavam por ali; Fui convidado pra uma festa nobre; na casa de Exu Tiriri…”

5
Exu, potência e gingado, ponto riscado na carne, palco das festas da gente. Brinca o carnaval em transe, desafia, des(con)fia, desconcerta, bate a bola no asfalto, pisa no sapatinho, samba despudorado, dança inflado de vida, palhaço, e trança a crina do cavalo. Deus de chinelo rasgado, boca beijada, copo na mão, Seu Sete da Lira, bloco lotado, a máscara, Odara!, o baque, o buraco, o cru, o afoxé, o maracatu, o surdo de terceira, a fuzarca dos velhos cordões, o som que vem das favelas, capaz de transver o mundo. Exu, pedra que pulsa, valsa convulsa, mangue que benze, curva, couro, esquina, jorro, ouro e lata no Bal Masqué: não é um robô sanguíneo, não! É santo – mas nem tanto.

6
Exu de tinta e de sangue: é dose, tudo come, tudo sabe, tudo viu. De curto pavio! Lamento de poetinhas – porque tudo é perigoso, divino-maravilhoso. Desnuda as frases no muro, sagrado e profano, mundano, pós-contemporâneo, língua ferina, flauta e cajado, casa de bamba, Basquiat no batuque, as letras amadas, a macumba dos modernistas, o piá-Macunaíma, os perfumes rosianos, na saga do Ser-Tão, “Exu nas escolas”, voz estelar, quebrando tabus e “costumes frágeis” – vocês não aprendem na escola. Vocês copiam! Criemos! Novas pedagogias, para os tempos que virão. Verão! Antropofagias, Enugbarijó. “Através das travessuras de Exu / Apesar da travessia ruim…”

7
Exu que não é o diabo do teatro colonial, projeto de corpos mortos (culpas, medos, grilhões, carcaças, escravos disfarçados de libertos) – mas força que une os opostos, jongo de ser e não ser. Exu, to be e Tupi! Fome, cada vez mais fome! Insone. Os nervos são fios elétricos. Evoca os profetas do caos, as vozes do lixo, a desconstrução, o avesso do manto, um sem quanto, a costura dos trapos, as aparições, remendos-retalhos, o eterno retorno, a fortuna, os farrapos, o espanto e a possível, por que não?, recriação: Olímpia, Stela, Jardelina, Arthur Bispo do Rosário, Estamira no lixão de Gramacho, às margens da alegria, cantarolando aos vapores, saudando os cometas e o fogo, ao som milenar das estrelas, Yangi, pedras de laterita, bailando, da pá virada, Molambo, Mulamba, ruínas:

“Todo lugar tem uma rainha, lá no lixo também tem…”

Exu, a sacerdotisa:

– Câmbio, Exu! Fala, Majeté, fala! Os além dos além é um transbordo. Tem o eterno, tem o infinito, tem o além dos além. O além dos além vocês ainda não viram. Se eu sou à beira do mundo! Entendeu agora? Quer me desafiar? Você quer saber? Cada pessoa é um astro! Câmbio, Exu! Fala, Majeté, fala!

Falemos! Dancemos! Bebamos! Vivamos! Destranquemos os olhos! Sigamos por outros caminhos! Cantemos até o fim – que não deixa de ser um começo. Ouçamos os atabaques – atentos, plenos, fortes!

Exu, a ancestralidade. Exu, desenredo proposto. Exu, a aposta mais alta. Exu, o padê arriado. Exu, passada ligeira: Exu, Laroiê, Mojubá!

– Câmbio, Exu!

Fala, Grande Rio!

Transbordado com expressões e falas retiradas do documentário “Estamira”, de Marcos Prado, além de fragmentos de poemas, canções e pontos de macumba. Inspirado nas provocações de Conceição Evaristo, Helena Theodoro, Alberto Mussa, Luiz Antonio Simas (“Exu é uma escola de samba!”) e Luiz Rufino; e nas narrativas orais de Luiza Maria e Dib Haddad. Dedicado aos inúmeros torcedores apaixonados que nos ajudaram a tecer este.

Fonte: JC – UOL

 

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