Barueri

Burnout exige reconhecer também papel do coletivo, dizem especialistas

É improvável que haja quem ainda não tenha lido ou ouvido sobre o burnout, termo em inglês adotado para descrever o esgotamento profissional. Há livros sobre o recorte geracional da síndrome, celebridades como a ginasta Simone Biles vieram a público contar suas experiências, podcasts e perfis em redes sociais tratam do assunto.

E é necessário que se fale ainda mais, dizem especialistas de diversas áreas, para que a visibilidade permita, ao mesmo tempo, mais diagnósticos e menos estigmatização.

Desde o dia 1º de janeiro, a síndrome ganhou nova e mais detalhada descrição na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). A mudança é sutil. De uma condição de saúde, ela passa a ser descrita como fenômeno ocupacional, no índice de “problemas associados com estar empregado ou desempregado”.

Para o psiquiatra e psicanalista João Salla, a nova classificação pode ajudar as sociedades médicas a definirem fluxos de atendimento.

“Talvez seja um norte interessante para pensar, para olhar para esse paciente em burnout e estabelecer um fluxo de atendimento. Talvez consigam mais palestras e trazer isso para a psiquiatria como um todo e orientar que essa pessoa precisa de tratamento”, diz. “A abordagem do burnout no Brasil ainda é muito acadêmica”, diz.

A descrição mais detalhada da síndrome, para além do simples esgotamento profissional, diz que o burnout tem três dimensões que podem ou não ocorrer concomitantemente.

Há a insatisfação profissional que escapa para a vida pessoal, uma sensação permanente de falta de propósito, a despersonalização, quando as pessoas passam a ser vistas como objetos e o trabalhador se expressa por meio de um comportamento cínico, e há a exaustão emocional, que pode ser vista como um estado de apatia profunda.

Um ponto de partida delicado na abordagem do burnout é que não há tratamento definido e único para os que são acometidos pela síndrome.

O tratamento, destaca o especialista, é sempre individual. A proteção ao trabalhador, porém, é sempre ambiental, ou seja, tem relação com o local, que geralmente é onde o sujeito trabalha, mas que também pode ser a universidade, no caso de estudantes.

Em 2019, quando aprovou a nova classificação, a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) e a OMS (Organização Mundial de Saúde) disseram que “burnout se refere especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicada para descrever experiências em outras áreas da vida.”

Salla diz perceber que medidas relativamente simples, como palestras, têm efeito positivo sobre os trabalhadores. Separar um momento para falar do assunto permite que aqueles que compartilham o mesmo ambiente de trabalho possam se identificar uns nos outros.

“O problema é que a pessoa não fala e o assunto costuma ser ignorado. Quando o funcionário é acometido pelo burnout, ele vai ser visto como um empregado ruim, mas ele é uma pessoa adoecida e é assim que ele tem que ser tratado.”

Para João Marcio Souza, diretor-executivo da Talenses Executive, que trabalha com recrutamento e seleção de mão de obra, somente uma revisão mais profunda e, portanto, mais demorada, do modo como as empresas funcionam pode ter efeito sobre os casos de burnout.

“Antes de tudo é necessária uma mudança mais estrutural do capitalismo e da busca por lucro ou as pessoas continuam sofrendo diante do modelo de sucesso das organizações”, diz.

“Estamos vivendo um excesso de presente, de realidade. As pessoas caem no estresse de correr atrás de metas, de crescimento. Já era um modelo agressivo e ainda vem uma pandemia”, afirma o executivo.

Na avaliação de Souza, somente uma mudança de comportamento a partir do topo das empresas pode evitar que “se enxugue gelo”. O psicanalista João Salla concorda: “a tônica de qualquer mudança [de políticas para um ambiente de trabalho mais humanizado] é que ela tem que ser de cima para baixo.”

Com a nova classificação, o trabalhador que decidir buscar a Justiça do Trabalho em busca de reparação terá mais facilidade? Não necessariamente, segundo o advogado Matheus Cantarella Vieira, da área trabalhista do Mello e Torres Advogados, para quem o maior efeito da reclassificação é aumentar a atenção em relação à doença.

“De qualquer forma, na Justiça, como qualquer doença, é necessário demonstrar a culpa da empresa, que pode ser por não ter feito nada ou por ter feito algo específico”, diz. “Nesse sentido, não ter metas abusivas, barrar jornadas longas, respeitar períodos de férias e permitir que a pessoa fique desconectada do trabalho são fatores de proteção.”

Para o diretor-executivo da consultoria de marcas iN, Fábio Milnitzky, as organizações já sabiam da importância da saúde física como parte da própria produtividade de seus funcionários. “Agora é necessário que elas também compreendam a necessidade de se desenvolver um ambiente seguro, transparente, de escuta ativa, para que as trocas passem a fazer parte da natureza corporativa.”

A nova CID em vigor desde o dia 1º também trouxe outras alterações, como a reorganização dos transtornos que fazem parte do espectro do autismo, e a reclassificação da transexualidade, que saiu dos distúrbios mentais, e agora está no índice de saúde sexual, sob o nome de “incongruência de gênero”.

As empresas ou indivíduos interessados em levantar o potencial para o acometimento da síndrome de burnout podem usar adaptações da MBI (Maslach Burnout Inventory), uma escala criada pelo pesquisador que dá nome ao questionário.

É importante usar o teste apenas como uma referência, um parâmetro, o que não substitui uma avaliação médica ou psicológica. Ele não representa um diagnóstico, mas pode ajudar o trabalhador a refletir sobre o que está vivendo.

COMO USAR O QUESTIONÁRIO

Atribua uma pontuação de 0 a 5 para cada afirmação abaixo. Quando terminar, some os números.​​
Características psicofísicas em relação ao trabalho:

  • Sinto-me esgotado(a) emocionalmente em relação ao meu trabalho
  • Sinto-me excessivamente exausto ao final da minha jornada de trabalho
  • Levanto-me cansado(a) e sem disposição para realizar o meu trabalho
  • Envolvo-me com facilidade nos problemas dos outros
  • Trato algumas pessoas como se fossem da minha família
  • Tenho que desprender grande esforço para realizar minhas tarefas laborais
  • Acredito que eu poderia fazer mais pelas pessoas assistidas por mim
  • Sinto que meu salário é desproporcional às funções que executo
  • Sinto que sou uma referência para as pessoas que lido diariamente
  • Sinto-me com pouca vitalidade, desanimado(a)
  • Não me sinto realizado(a) com o meu trabalho
  • Não sinto mais tanto amor pelo meu trabalho como antes
  • Não acredito mais naquilo que realizo profissionalmente
  • Sinto-me sem forças para conseguir algum resultado significante
  • Sinto que estou no emprego apenas por causa do salário
  • Tenho me sentido mais estressado(a) com as pessoas que atendo
  • Sinto-me responsável pelos problemas das pessoas que atendo
  • Sinto que as pessoas me culpam pelos seus problemas
  • Penso que não importa o que eu faça, nada vai mudar no meu trabalho
  • Sinto que não acredito mais na profissão que exerço

RESULTADOS:

De 0 a 20 pontos: nenhum indício de burnout
De 21 a 40 pontos: possibilidade de desenvolver burnout, procure trabalhar as recomendações de prevenção da síndrome.
De 41 a 60 pontos: fase inicial de burnout, procure ajuda profissional para debelar os sintomas e garantir, assim, a qualidade no seu desempenho profissional e a sua qualidade de vida.
De 61 a 80 pontos: burnout começa a se instalar. Procure ajuda profissional para prevenir o agravamento dos sintomas.
De 81 a 100 pontos: você pode estar em uma fase considerável de burnout, mas esse quadro é perfeitamente reversível. Procure o profissional competente de sua confiança e inicie o quanto antes o tratamento

Fonte: questionário adaptado por Chafic Jbeili, a partir do Maslach Burnout Inventory

ONDE PROCURAR AJUDA

Diversos planos de saúde têm programas específicos para lidar com a saúde mental em abordagens multidisciplinares, quando o paciente é atendido dos vários tipos de profissionais. Empresas maiores costumam ter seus próprios programas, em geral desenvolvidos pela equipe de recursos humanos.

Na rede pública, o atendimento pode ser feito a partir da UBS (Unidades Básicas de Saúde), onde há serviço ambulatorial, ou no Caps (Centros de Atenção Psicossocial).

Em São Paulo, todos funcionam, segundo a prefeitura, em “regime de porta aberta”, ou seja, não é necessário agendamento ou encaminhamento da UBS. Veja aqui a lista com os endereços dos Caps da capital, divididos por região.

 

Fonte: R7

 

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